Os efeitos do isolamento social na autoimagem feminina

Mudanças na rotina e o estresse causado pela pandemia de Covid-19 causam impacto na autoestima de mulheres

A mudança na rotina e aumento dos níveis de estresse provocados pela atual crise sanitária podem desencadear distúrbios de imagem e autoestima. Gordofobia, anorexia e derivados da pressão estética são situações que não escolhem o gênero. Porém, mulheres são frequentemente acometidas por tais situações que prejudicam a vida de centenas de pessoas.

“Vinha uma ansiedade maluca, um buraco sem fundo e eu saia comendo tudo. Durante a pandemia, principalmente nos primeiros meses, isso aconteceu”, conta Mariana Soares, psicóloga de 25 anos que teve a vida alterada pelas medidas de prevenção da Covid-19. Ela mantinha uma rotina de exercícios físicos por conta de problemas de coluna e teve que pausar o tratamento.

Mariana Soares fez as pazes com o corpo durante a quarentena. Foto: arquivo pessoal

Para Joana Novaes, psicanalista e professora da pós-graduação da Universidade Veiga de Almeida, as mulheres são mais suscetíveis a esse tipo de comportamento por conta de uma construção social, ou seja, algo que é forjado em conjunto e acaba se tornando um costume, algo normatizado. “A ideia seria encerrar, limitar, restringir a imagem da mulher, a representação social da mulher a um universo doméstico, a um universo dos cuidados, da prole, do corpo.”, explica Joana Novaes.

Ouça a psicanalista Joana Novaes falar sobre pressão estética

Para Naomi Wolf, autora de “O mito da beleza”, a regulação dos corpos femininos é uma forma de controle sutil através da perseguição pela perfeição estética que aprisiona e silencia mulheres. “Quando se atrai a atenção para as características físicas das mulheres, essas líderes podem ser repudiadas por serem bonitas demais ou feias demais”, escreve.

Viver numa sociedade que cerceia o ideal de mulher não abrevia as múltiplas narrativas existentes. Mariana Soares é um exemplo de que o momento pode ser propício ao reconhecimento pessoal. Para ela, descontar a ansiedade na comida deu lugar para a aceitação. “A relação com o corpo melhorou muito porque eu estava em casa, eu estava em contato comigo”.

Joana Novaes, pós-doutora em Psicologia Médica e Social, acredita que a virtualização as atividades possibilitou um relaxamento positivo na relação com o corpo. Foto: arquivo pessoal

Joana Novaes esclarece que assim como Mariana, outras mulheres também tiveram essa mesma experiência. Houve um afrouxamento em relação a autoimagem durante o isolamento, uma vez que a casa foi ressignificada como espaço de trabalho, lazer, entre outras atividades que puderam ser virtualizadas.  Segundo a psicanalista, a atual conjuntura fez com que as demandas também mudassem. “As mulheres num geral estão consumindo menos o corpo quanto mercadoria, o consumo permanece, mas não o consumo do culto ao corpo”, explica.

A aceitação não é uma jornada linear. Mariana e outras mulheres vivem o processo de fazer as pazes com o próprio corpo. As redes sociais podem ser aliadas nessa trajetória. A hashtag “corpo livre”, com 300 mil publicações, e “amor-próprio”, com 7,9 milhões, possibilitam a troca de experiências de pessoas que estão em busca não da perfeição, mas de acolhimento. “Espero estar caminhando para isso”, conta Mariana.

Atento aos sinais

Transtornos de imagem ainda são comuns e podem desencadear distúrbios alimentares. Segundo a Organização das Nações Unidas, 4,7% dos brasileiros convivem com esse problema, entre os jovens, o número é de 10%. Por isso, para a psicanalista Joana Novaes, é preciso se manter atento a mudanças comportamentais e buscar ajuda profissional.

Ter uma rede de apoio que incentive o acompanhamento profissional é crucial. Pessoas com distúrbios alimentares apresentam certa resistência em manter o tratamento, apenas 5% seguem o acompanhamento, segundo a psicanalista. Esse panorama se agrava, pois, a maior parte dos pacientes que continua o tratamento já se encontra num estágio avançado e com consequências consolidadas. “Esses sujeitos veem no psicólogo, no psiquiatra, no nutricionista, um inimigo. O que acontece nesses casos é que a família ou alguém próximo busca ajuda, mas que o sujeito tem muita resistência”, explica.

Desse modo, é importante saber quais os sinais e em quais lugares procurar amparo. Além dos profissionais já citados, portais como o centro de valorização a vida podem ser ferramentas úteis para minimizar os efeitos dos problemas de imagem e distúrbios alimentares. 

Rafaela Barbosa – 8º período

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