Sentir dores intensas a ponto de desmaiar, ficar impedida de sair da cama para ir à escola ou ao trabalho e escutar que “cólica é normal”, são experiências comuns para milhares de brasileiras. A endometriose, enfermidade inflamatória crônica que acomete o sistema reprodutor feminino, ultrapassa os sinais físicos aparentes. Ela compromete a saúde mental, interfere em funções cognitivas e demanda uma abordagem multidisciplinar, incluindo psicologia e nutrição, para restaurar a qualidade de vida das pacientes.

Infográfico indica os principais sintomas da endometriose, a porcentagem de mulheres que convivem com o diagnóstico e o impacto na infertilidade. (Imagem: Juliana Knauer)

Dados do DATASUS e Conitec nos mostram a consequência da falta do diagnóstico precoce. (Imagem: Juliana Knauer)

Conforme dados do Ministério da Saúde, a enfermidade acomete aproximadamente uma em cada dez mulheres no Brasil, apresentando-se sobretudo na fase reprodutiva. Ainda assim, o percurso entre os primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo costuma ser prolongado e penoso.

Para a estudante Carolina Santoni, hoje com a doença controlada, o entendimento de que seu corpo pedia socorro veio de forma traumática. “Percebi que a dor que eu sentia não era uma cólica normal em um dia muito específico. Passei muito mal após comer uma comida apimentada, a ponto de desmaiar”, relembra. Como convivia com o desconforto desde a adolescência, Carolina achava que o sofrimento fazia parte de sua natureza. Foi o olhar atento de sua mãe que mudou o rumo da história.

Carolina Santoni, nos conta sobre sua rotina com endometriose. (Foto: Juliana Knauer)

A primeira menstruação de Carolina ocorreu na transição para a adolescência, mas foi entre os 15 e 18 anos que a intensidade da dor tornou-se totalmente anormal, a ponto de impedi-la de realizar atividades básicas. “Antes do diagnóstico, a dor era tão intensa que eu não conseguia me mexer, levantar da cama ou ir ao colégio. Além da dor pélvica, a endometriose manifestava outros sintomas associados, como o inchaço severo nas pernas, o que me impedia de movimentá-las”, conta a estudante. 

Depois de anos com esses sintomas, Carolina deu a sorte de ser atendida por uma ginecologista especializada no assunto através de seu plano de saúde, o que garantiu um laudo definitivo em cerca de três meses, uma exceção à regra no Brasil. “Tenho certeza de que, se tivesse consultado outro médico, o diagnóstico teria demorado muito mais, pois poderiam justificar os sintomas como estresse ou alteração hormonal comum, algo que infelizmente aconteceu com várias amigas minhas”, pontua. 

O relato de Carolina sobre o histórico de suas amigas reflete a realidade da maioria das brasileiras. De acordo com especialistas, o principal obstáculo para a identificação precoce da endometriose é o consumo cultural equivocado de que a mulher nasceu para sofrer ao menstruar.

A ginecologista Gabriella Iuorno explica que o atraso nos consultórios está intimamente ligado à forma como a sociedade molda a resistência feminina. “As mulheres crescem acostumadas a lidar com dores e desconfortos, por esse motivo temos um gap de diagnóstico da endometriose. Muitas pacientes normalizam a dor por anos antes de buscar ajuda”, alerta. 

Gabriella Iuorno, ginecologista nos explica melhor sobre os sintomas da endometriose. (Reprodução: arquivo pessoal)

Essa percepção é compartilhada pela ginecologista Nathalie Raibolt, que destaca a cólica severa como o primeiro sinal de alerta negligenciado. Ambas as médicas apontam que os sintomas ignorados vão muito além do período menstrual e frequentemente envolvem tabus, como a dor durante a relação sexual. “Muitas vezes, esse desconforto é atribuído incorretamente ao início da vida sexual ou à falta de lubrificação natural. Contudo, o que de fato ocorre é a presença de focos de endometriose em localizações anatômicas específicas”, esclarece a Drª Nathalie.

Nathalie Raibolt , ginecologista. (Reprodução: arquivo pessoal)

De acordo com a Doutora Gabriella, a lista de sintomas que exigem atenção médica urgente inclui: 

  • Dismenorréia intensa (cólica menstrual incapacitante);
  • Dor pélvica crônica fora do período menstrual;
  • Dispareunia (dor na relação sexual);
  • Dor ao evacuar ou urinar durante o ciclo menstrual;
  • Fadiga persistente e inchaço associado.

Segundo Gabriella,  demora de meses ou até anos do diagnóstico  acontece por uma combinação de fatores, como a normalização cultural da dor menstrual, a falta de preparo dos médicos de atenção primária para suspeitar da doença, ausência de exame não-invasivo definitivo e o fato de que o ultrassom pode ser normal em formas superficiais. 

Quando o diagnóstico finalmente chega, ele costuma vir acompanhado de uma série de perdas abstratas, mas extremamente dolorosas. De acordo com a psicóloga Izaianni Risco, a dor crônica da endometriose altera o próprio sistema nervoso central da paciente por meio de um processo chamado “sensibilidade central”. “Do ponto de vista bioquímico e neurológico, a dor contínua provoca alterações cognitivas significativas, prejudicando as funções executivas, a atenção, a concentração e a memória”, explica. 

Izaianni Risco, psicóloga especializada em endometriose, compartilha como a endometriose pode afetar o psicológico das pacientes. (Reprodução: Arquivo pessoal)

No âmbito emocional, o impacto mais devastador é a desestruturação da identidade feminina. Como a sociedade cobra que a “mulher moderna” dê conta de múltiplas tarefas, as limitações físicas geradas pela doença abrem espaço para sentimentos de inadequação e culpa. A psicóloga ressalta que o tratamento psicológico exige o manejo de “múltiplos lutos”:

  • O luto pelo corpo: A aceitação de um organismo que funciona de forma diferente e limitada.
  • O luto pelos planos: Projetos profissionais, acadêmicos e viagens adiados ou cancelados por conta de crises pélvicas.
  • O luto pela fertilidade: O enfrentamento do medo ou da realidade de não poder gerar filhos (no caso de Carolina, seu laudo inicial quase indicou um quadro definitivo de infertilidade).
  • O luto do crédito em si mesma: O trauma de ter passado anos sendo desacreditada por familiares, chefes e médicos.

“Muitas pacientes ouvem durante décadas que sentir dor é normal e que, se deixam de cumprir obrigações, é por fraqueza. Quando uma paciente ouve de um especialista que ‘está tudo bem’ ou que ela está ‘exagerando’, ela passa a questionar a própria sanidade. Esse processo de invalidação faz com que a mulher sinta que está enlouquecendo”, afirma Izaianni. 

O reflexo disso se espalha por todas as áreas. Nos relacionamentos amorosos, muitas mulheres se isolam e anulam o próprio prazer por culpa; no trabalho e na faculdade, são frequentemente rotuladas de forma injusta como “preguiçosas” ou “queixosas”. Mesmo com a interrupção da menstruação pelo tratamento, Carolina Santoni confirma essa montanha-russa: “A doença impacta diretamente a minha rotina, provocando muita oscilação de humor. Sinto que o meu corpo sente falta do ciclo menstrual e se prepara para ele”. 

Por se tratar de uma doença complexa e crônica, o consenso médico atual dita que não existe uma receita única para o bem-estar. “O tratamento é individualizado, não existe protocolo único”, enfatiza a Drª Gabriella Iuorno. “A combinação entre o tratamento hormonal e o suporte multidisciplinar costuma trazer os melhores resultados para a qualidade de vida. Nos casos mais refratários, o tratamento cirúrgico é indicado.” 

A ginecologista Nathalie Raibolt detalha a lógica por trás da abordagem medicamentosa inicial, “Como a endometriose é uma doença progestágena e estrogênio-dependente, utilizamos terapias hormonais que bloqueiam a ação do estrogênio nas células endometriais fora do útero. Esse bloqueio cessa o processo inflamatório nos focos e alivia a dor”. A cirurgia para a remoção das lesões (ou de endometriomas nos ovários) entra como segunda opção ou como escolha imediata em quadros de estágio mais extenso. 

Como o foco central da doença é a inflamação, a nutrição surge como um braço estratégico essencial desse tratamento integrativo. A nutricionista Lara Ribeiro explica que a grande maioria das pacientes apresenta distúrbios intestinais associados, um sintoma também relatado por Carolina, que sofre com inchaço severo  ao ingerir qualquer alimento ou água. 

Lara Ribeiro, nutricionista, nos conta sobre os alimentos que podem piorar os sintomas da endometriose e sobre os alimentos que ajudam a melhorar os sintomas. (Foto: Juliana Knauer)

“O pilar fundamental para o manejo da endometriose é uma alimentação saudável, baseada em ‘comida de verdade’ e adaptada de forma individualizada. A regra clássica de priorizar o consumo de frutas, legumes e vegetais, ou seja, descascar mais e desembalar menos, contribui significativamente”, aponta Lara. 

A nutricionista destaca as principais diretrizes alimentares para o controle da doença:

  • Reduzir ou Evitar: Carne vermelha, embutidos (salsicha, presunto, peito de peru) e produtos ultraprocessados. Esses alimentos possuem alto potencial para acentuar os quadros inflamatórios do organismo.
  • Controle do Peso Corporal: Manter um peso adequado é crucial, pois a obesidade gera um estado inflamatório contínuo que estimula a produção de citocinas inflamatórias, agravando os focos de endometriose.
  • Individualidade Biológica: Investigar sensibilidades e intolerâncias alimentares específicas que cada paciente possa manifestar na saúde digestiva.

Vencer o luto e o estigma da endometriose exige que a paciente seja enxergada como um ser humano e não apenas como “uma pelve doente”. Para além dos consultórios, a reconstrução da vida dessas mulheres depende do fortalecimento de redes de apoio. 

A psicóloga Izaianni Risco conclui orientando que a paciente necessita de duas redes distintas: a primeira, composta por familiares e amigos para auxílio prático no cotidiano e validação afetiva; a segunda, formada por outras mulheres que vivenciam a mesma patologia, permitindo a troca genuína de experiências. 

Só assim, unindo medicina, nutrição, psicologia e empatia social, será possível transformar a dor invisível em acolhimento e dar às mulheres o direito de viver para além da endometriose.

Juliana Knauer – 7º Período de Jornalismo

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