Conquistar uma vaga no ensino superior, muitas vezes, é apenas o início de uma longa jornada. O sonho do diploma, no entanto, esbarra em custos diários que vão muito além do valor da mensalidade ou da matrícula.  Em muitos casos, são esses gastos “invisíveis” que determinam quem realmente consegue permanecer na universidade até o fim do curso.

De acordo com artigo “Vida Universitária e saúde financeira dos estudantes”, da Revista FT, muitos jovens começam a administrar seus recursos próprios apenas na faculdade, o que favorece gastos impulsivos e desorganização financeira. 

A estudante de História da Arte da UERJ, Júlia Freitas Braga, de 20 anos, é um exemplo de quem convive com essas despesas mesmo sem ser impactada pela falta de recursos. Apesar de não trabalhar e ter uma rotina financeiramente estável, ela afirma que os custos mensais pesam. “Gasto por volta de 300 reais por mês só com passagens de ônibus, além das despesas com alimentação”, relata. Ela garante que não há um item que comprometa mais o orçamento que o outro, mas reconhece que sua realidade não é a da maioria e faz uma ressalva:  “Com certeza existe relação entre dificuldades financeiras e a desistência na permanência no ensino superior, uma vez que os gastos com a faculdade e com outros aspectos importantes excedem a capacidade de muitos estudantes”, afirma a estudante.

Júlia Freitas Braga de 20 anos, aluna de História da Arte.  (Arquivo pessoal) 

Para ela, a organização financeira aparece como uma estratégia para lidar com essas demandas. Ela considera que priorizar o essencial é fundamental. “Uma boa forma de se organizar financeiramente é gastar apenas com o essencial, como alimentação e transporte e principalmente com a saúde mental ”, aconselha a estudante. No entanto, essa percepção reflete uma realidade particular. 

A pesquisadora e economista sênior ,Lúcia Garcia, explica que o problema dos custos invisíveis está diretamente ligado à ausência de políticas eficazes de permanência estudantil. “O Governo Federal foca no acesso e não na permanência no Ensino Superior, enquanto as instituições privadas estruturam sua atividade como um negócio rentável, mesmo quando recebem recursos federais diretamente para oferecimento de vagas. Então, não estamos apenas frente a uma realidade marcada por lacunas; trata-se de um sistema pouco efetivo”. 

 Lúcia Garcia, Economista Sênior do DIEESE, departamento intersindical de estatísticas e  estudos. ( Arquivo pessoal) 

Segundo a especialista, o debate sobre os custos invisíveis ainda recebe pouca atenção. “Sem uma política ampla de gratuidade de ensino, incluindo alimentação e moradia, além de mecanismos mais diretos de transferência de renda aos jovens, a realidade não muda”, afirma a economista. 

Por sua vez Beatriz, estudante de Educação Física e funcionária da biblioteca acadêmica na Universidade Veiga de Almeida (UVA), vivencia uma realidade diferente. Com bolsa integral e vínculo de trabalho na própria instituição, ela afirma que seus custos relacionados à faculdade são reduzidos . “Tenho bolsa de 100% e trabalho na faculdade, então praticamente não tenho gastos com isso. Entretanto, meus custos são mais pessoais”, explica Beatriz. 

 Ana Beatriz Almeida , estudante de educação física. (Foto: Reprodução Agência UVA Barra) 

Ainda assim, ela chama atenção para uma desigualdade que, segundo ela, é visível no ambiente universitário. “Não é à toa que as universidades públicas são cheias de pessoas com mais dinheiro. Muita gente de baixa renda até passa, mas não consegue continuar porque precisa trabalhar”, observa. 

O relato das estudantes expõe um problema estrutural ainda presente no país: o acesso ao ensino superior, por si só, não garante a permanência dos alunos. Em muitos casos, ingressar na universidade é apenas o primeiro obstáculo de uma trajetória marcada por desafios financeiros e emocionais.

Dessa forma, auxílio como bolsas de alimentação, transporte, moradia estudantil e apoio psicológico tornam-se fundamentais para garantir que estudantes consigam não apenas ingressar, mas concluir sua formação. Em um país marcado por desigualdades sociais, discutir os custos invisíveis da vida universitária é também discutir quem consegue, de fato, permanecer na universidade. 

Ana Luiza – 7 período. 

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