O crescimento dos casos de adoecimento emocional no ambiente corporativo tem colocado a saúde mental no centro das discussões dentro das empresas. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos por síndrome de burnout cresceram 823% em quatro anos e passando de 823 casos em 2021 para 7.595 em 2025, evidenciando o avanço do esgotamento profissional no Brasil. Reconhecida como uma síndrome relacionada ao trabalho, a síndrome de burnout é caracterizada por esgotamento físico e emocional provocado em situações de estresse crônico no ambiente profissional. 

“A gestão pelo terror ainda é uma prática de líderes despreparados que tentam alcançar resultados pela pressão, sem estratégia e sem gestão de pessoas.”, Camila Macedo Dias

Nos treinamentos e consultorias realizadas nas empresas, a especialista em liderança Camila Macedo Dias afirma que a principal queixa dos colaboradores está relacionada à comunicação com seus gestores. Segundo ela, muitos profissionais relatam não receber feedbacks adequados e principalmente, não compreenderem com clareza o que a liderança espera deles. “O top 1 do ranking é comunicação. Eles reclamam que a liderança não sabe ou não aplica feedback. Não sabem cobrar resultado e, o mais preocupante: alegam não saber o que a gestão espera deles.” afirma Camila.

As práticas de liderança baseadas na pressão excessiva ainda estão presentes em algumas organizações, porém tendem a ser cada vez menos aceitas pelos trabalhadores. Camila classifica a questão “gestão pelo terror” como uma atitude de líderes despreparados, que tentam alcançar resultados pela pressão, sem estratégia e sem uma gestão adequada de pessoas.

“O adoecimento psíquico é multifatorial. Não podemos responsabilizar apenas o indivíduo por um sofrimento que também está relacionado ao ambiente de trabalho.” Renata Livramento, psicóloga especializada no Adoecimento Emocional 

A psicóloga Renata Livramento, que acompanha casos de adoecimento emocional relacionados ao trabalho, explica que qualquer profissional está suscetível a desenvolver um quadro de sofrimento psicológico, inclusive aqueles que encontram propósito e satisfação na própria carreira. “Pessoas altamente engajadas, que têm o trabalho como um propósito de vida e gostam do que fazem, também adoecem.” declara a psicóloga. 

Além dos impactos na carreira, Renata ressalta que o sofrimento ultrapassa o ambiente corporativo e interfere diretamente na identidade e na vida pessoal dos indivíduos. “A separação entre vida profissional e vida pessoal é didática. Na prática, isso não existe. O adoecimento no trabalho invade a vida da pessoa como um todo.” acrescenta.

“Eu normalizei sinais que não eram normais. Vivia cansado, com o coração acelerado e com a sensação de que precisava estar disponível o tempo todo.” Jornalista, Jeff Souza

O jornalista Jeff Souza é um dos profissionais que vivenciou esse processo. Após mudanças em sua rotina de trabalho, aumento da carga de demandas e uma relação desgastante com a liderança, ele desenvolveu burnout e precisou deixar o emprego após o agravamento do quadro. “Os primeiros sinais foram um cansaço constante que não desaparece nem durante os períodos de descanso. Depois vieram a dificuldade para dormir, a ansiedade antes do expediente e episódios frequentes de choro.” relata Jeff.

Com o avanço dos sintomas, Jeff percebeu mudanças profundas em seu comportamento e relata que chegou a não reconhecer mais a própria personalidade, ele afirma, “Eu sempre fui uma pessoa extremamente positiva. Aos poucos, percebi essa versão de mim desaparecendo. Cheguei a um ponto em que acordar para trabalhar se tornou uma fonte diária de sofrimento.”

A experiência do jornalista reflete com o alerta feito por Renata sobre a tendência de muitos profissionais minimizarem os primeiros sinais de adoecimento. Segundo a psicóloga, em grande parte dos casos, as pessoas só percebem a gravidade da situação quando os sintomas já estão mais intensos. O medo de ser julgado como fraco ou incapaz ainda impede muitas pessoas de procurarem ajuda especializada. Apesar de os tabus terem diminuído, o aumento dos casos de sofrimento emocional fez com que empresas e órgãos reguladores passassem a olhar o tema com mais atenção.

Entrevista com a Renata Livramento para entender um pouco mais sobre:

“O medo de ser considerado fraco ou incapaz ainda faz com que muitos profissionais silenciem o próprio sofrimento e adiem a busca por ajuda”, alerta a psicóloga Renata Livramento.

Outro comportamento preocupante é a normalização de hábitos prejudiciais, como a dificuldade constante para dormir, permanecer conectado ao trabalho fora do expediente e viver no “piloto automático”. Para a especialista, o estresse crônico não deve ser encarado como uma condição normal da vida profissional.

A transformação desse cenário também passa pelo papel da liderança. Camila afirma que equipes costumam refletir a postura de seus gestores e que mudanças positivas acontecem quando o líder desenvolve habilidades humanas e compreende as necessidades de cada integrante do time. “É impossível desenvolver alguém que não se conhece a fundo.”

Em um cenário em que produtividade e resultados ainda são prioridades dentro das empresas, especialistas reforçam que cuidar da saúde mental dos trabalhadores não deve ser visto como um benefício extra, mas como parte essencial de uma gestão responsável e humana.

Giulia Karol – 7º Período de Jornalismo

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