Dirigido por Dandara Ferreira, Anatomia do Caos revisita a pandemia de Covid-19 no Brasil como tragédia política, com acesso inédito aos bastidores da CPI da Covid (abril a outubro de 2021). Usando farto material de arquivo, o filme mostra como o discurso oficial colocou a ciência em xeque e transformou a dor coletiva em deboche, resultando em mais de 700 mil mortes.

À frente do país estava Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar, condenado pelo STF a 27 anos por liderar a trama golpista contra a posse de Lula. No documentário, ele é acusado pelo epidemiologista Pedro Hallal de responsabilidade direta por parte das mortes, e descrito pelo senador Renan Calheiros como alguém escondido no Planalto enquanto o país passava de 600 mil vítimas. Já Flávio Bolsonaro, senador à época e hoje pré-candidato à Presidência, aparece como figura apagada e pouco articulada.

A montagem contrapõe espaços vazios do Senado a corredores movimentados, sugerindo ceticismo crescente quanto ao efeito prático das recomendações da CPI, sentimento também presente na fala da senadora Simone Tebet, que reconhece o mérito de acelerar a vacinação, mas alerta para um novo e grave esquema de corrupção investigado no Ministério da Saúde. Ao final, a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento da maior parte das acusações contra Bolsonaro e dos demais 78 indiciados. As legendas finais resumem o saldo: mais de 700 mil mortos, nenhuma condenação, nenhuma prisão, nenhum pedido de desculpas.

Com fotografia de Roberto Stuckert, montagem de Lara Beck e Renato Sircilli e trilha de Fabrício Modesto, o filme estreia nesta quinta-feira, 2 de julho, a três meses do primeiro turno das eleições (4 de outubro), com exibições seguidas de debate em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Recife, Manaus, Curitiba e Fortaleza. A urgência é reforçada pelo cenário eleitoral: Flávio Bolsonaro soma cerca de 43% das intenções de voto num eventual segundo turno, segundo Datafolha de 20 de junho. Mais que um registro histórico, Anatomia do Caos é um ato de resistência contra o esquecimento.

Duda Nicolich – 3º Período de Jornalismo

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