Em outubro o mundo veste rosa. A campanha, que tem como objetivo alertar mulheres e a sociedade acerca do diagnóstico do câncer de mama, ultrapassa fronteiras. O movimento surgiu na década de 90 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil em 2002, quando foi iluminado de cor rosa o Obelisco do Ibirapuera em São Paulo. Hoje a campanha de conscientização é apoiada por organizações da sociedade civil, instituições de saúde, empresas e governos promovendo não só informação, como também auxílio a pessoas que receberam o diagnóstico de câncer e seus familiares.
Além do tratamento precoce, o acesso à informação é fundamental para que as mulheres se permitam a conhecer seus corpos realizando o autoexame de forma regular, prestando atenção a sinais como nódulos, alterações na pele ou secreções e manter os exames preventivos, como a mamografia, em dia. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima cerca de 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no Brasil para o triênio 2026–2028.
O risco da doença aumenta com o envelhecimento, sendo mais frequente após os 50 anos, mas há registros crescentes em mulheres jovens. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) aproximadamente um terço dos casos de câncer de mama no Brasil ocorre em mulheres com menos de 50 anos, sendo que cerca de 5% a 17% aparecem em mulheres com menos de 40 anos
Dados como este servem para alertar à população feminina mais jovem, visto que a recomendação do Ministério da Saúde é que a mamografia seja indicada apenas às mulheres de 40 a 49 anos de forma individualizada, considerando a decisão compartilhada entre paciente e médico e somente para mulheres acima de 50 anos permanece a recomendação do rastreamento bianual, mesmo sem sinais ou sintomas.
Estudos epidemiológicos acompanhados pelo National Cancer Institute (NCI) e respaldados por entidades brasileiras mostram que tumores detectados em fase inicial apresentam taxas de cura que superam os 90%. O caminho até a cura traz consigo transformações na saúde física e emocional da mulher. Entre os efeitos colaterais dos tratamentos, a queda de cabelo surge como um dos mais marcantes.
Prestes a completar 30 anos em 2024, Joyce Lira, começou a apresentar sintomas incomuns como dores no braço que refletiam na área axilar e após procurar auxílio médico e realizar uma ultrassonografia foi diagnosticada com Câncer de Mama. Joyce recebeu um planejamento sobre o seu tratamento no qual consistia em sessões de quimioterapia, cirurgia de mastectomia da mama direita, reconstrução com prótese e, posteriormente a radioterapia. Antes do tratamento Joyce cortou os seus cabelos mais curtos e os doou à ONG Cabelegria.

Joyce antes do diagnóstico de câncer de mama no seu aniversário de 30 anos (Foto: Acervo pessoal)
Ainda durante as sessões de quimioterapia, Joyce tentou utilizar a touca térmica, que é um dispositivo médico usado para resfriar o couro cabeludo durante a quimioterapia com o objetivo de reduzir ou evitar a queda de cabelo, porém não obteve sucesso. “É muito difícil você se olhar no espelho e eu não reconhecer a imagem que você já via, a autoestima fica baixa, não é só estar careca, mas é falta de cílios, falta de sobrancelha, um inchaço, a pele manchada, então, diversos fatores que distorcem a imagem da paciente, assim como aconteceu comigo” compartilha.

Joyce com a touca térmica durante o tratamento de quimioterapia (Foto: Acervo pessoal)

Joyce durante o tratamento de quimioterapia no hospital. (Foto: Acervo pessoal)
A Psico-oncologia no cuidado da saúde mental do paciente oncológico
A psico-oncologia, é a área especializada da psicologia que se dedica a compreender e cuidar dos aspectos emocionais, psicológicos, comportamentais e sociais relacionados à experiência do câncer em cada indivíduo. Desde a suspeita, o diagnóstico, passando pelo tratamento e seus efeitos colaterais, até a vida após o câncer ou os cuidados paliativos. Para Tatiane Lima, psico-oncologista, que compartilha seus conhecimentos na área da psicologia e psico-oncologista em seu instragram @papo.onco, “A nossa missão não é simplesmente ajudar o paciente a pensar positivo ou simplesmente ser forte durante o tratamento. Nós precisamos desconstruir essa ideia de que enfrentar o câncer significa estar bem emocionalmente o tempo todo. O nosso papel enquanto psico-oncologista é oferecer esse espaço onde a pessoa pode existir para além da doença, reconhecer também os seus medos, as suas perdas, as possibilidades e os próprios recursos de enfrentamento. Porque quando a gente fala de tratamento oncológico, precisamos lembrar que nós não estamos cuidando apenas de uma doença, mas de alguém que continua tendo uma vida enquanto enfrenta essa doença” explica Tatiane.
A perda dos cabelos abala profundamente o emocional das pacientes, há um termo na psicologia que se chama perda simbólicas e a queda do cabelo ela pode representar uma dessas perdas. A alopecia que é induzida pelo tratamento pode provocar justamente esse confronto entre a imagem que a mulher reconhecia como sua e aquela que passa a encontrar diante do espelho.
“Muitas vezes nós utilizamos a nossa aparência como uma forma de comunicar quem somos ou quem estamos nos tornando. A diferença é que durante o tratamento oncológico, essa mudança não acontece por uma escolha. E aqui existe uma questão psicológica que é muito importante. Não é apenas a mudança da aparência que pode provocar o sofrimento, mas a sensação de não ter escolhido essa mudança, isso pode despertar sentimentos de estranhamento, vergonha, tristeza ou dificuldade de reconhecimento da própria imagem, isso também pode repercutir na sexualidade, nos relacionamentos afetivos, na maneira que se sentem percebidas pelas outras pessoas sobre uma perspetiva psicológica. A imagem corporal não corresponde àquilo que enxergamos no espelho, mas também envolve a representação subjetiva que construímos sobre o nosso corpo ao longo da vida. Por isso, a reconstrução dessa relação não acontece necessariamente o mesmo ritmo da recuperação física” aponta a psico-oncologista.
Tatiane Lima acredita que o trabalho realizado em redes de apoio e iniciativas sociais no cuidado oncológico pode ampliar o cuidado ao paciente. quando é possível construir pontes entre o hospital, a comunidade e essas organizações que oferecem esse suporte aos pacientes. “Ele não substitui, mas eles coexistem e eles podem amplificar esse cuidado. Então, o câncer provoca mudanças na rotina, na rotina, no trabalho, nas relações sociais e muitas mulheres, durante o tratamento, acabam se afastando de atividades que antes faziam parte da sua identidade. E é justamente nesse contexto que as organizações sociais começam a desempenhar um papel tão significativo. É uma oportunidade para que essas mulheres retomem a experiência da autonomia do pertencimento e do papel social. Eu considero isso muito importante, o encontro entre mulheres que compartilham experiências semelhantes. E esse reconhecimento ele pode diminuir a sensação de isolamento e favorecer a reconstrução de vínculos significativos. Naturalmente, essas iniciativas não substituem o acompanhamento psicológico, mas são necessários e são complementares ao cuidado”, afirma.
O diagnóstico traz uma série de desafios e questões que até então eram desconhecidas para esses pacientes. O acolhimento psicológico e o auxílio de ONGs na socialização e retomada do bem-estar auxiliam na reestruturação emocional do paciente oncológico. No meio desse processo Joyce percebeu a importância de ONGs como a Cabelegria em sua jornada para a cura. “É muito bom o tratamento estar aliado com acompanhamento de outras ONGs que também dão esse recolhimento para os pacientes, é uma forma de recuperar a imagem e encarar o tratamento de uma forma mais leve na questão psicológica. Conheci a Cabelegria pelo Instagram. Depois que eu tive diagnóstico, eu busquei na internet ONGs que pudessem me dar orientação, porque eu não tinha vivência nenhuma com câncer. Então marquei uma semana na sede e 15 dias depois, eu estava no escritório para fazer a escolha da peruca que eu me sentisse mais à vontade”, comenta Joyce.

Joyce com a peruca confeccionada pela Cabelegria (Foto: Acervo pessoal)
Hoje, aos 32 anos, Joyce celebra a cura e se mostra mais forte do que nunca. O período de incertezas e dores deu lugar à coragem. “É muito difícil receber um diagnóstico de câncer. É uma notícia muito pesada e carregada de informações que muitas vezes nós não conseguimos absorver. É o diagnóstico, quais são os tratamentos, medicações, termos técnicos, é muita informação que envolve a doença e o tratamento de câncer, mas o principal que a paciente precisa é buscar informações para que ela se sinta segura para entender o seu diagnóstico, tratamento. Existem recurso na ciência para que ela consiga buscar a cura. Hoje existem inúmeras instituições, ONGs que fazem o acolhimento desses pacientes. Tanto psicológico, tanto com doação de peruca, achar meios para que ela se sinta confortável para passar pelo tratamento, pela perda dos cabelos e que é uma construção, por mais que a gente se desconstrua, perdendo os cabelos, esse processo é necessário para construir e alcançar a cura”, conclui.

Joyce atualmente aos 32 anos curada do câncer (Foto: Acervo pessoal)
Enquanto a psicologia trabalha a elaboração interna e a aceitação emocional da doença, ações como o trabalho da ONG Cabelegria entregam a ferramenta prática para a reestruturação no mundo exterior das pacientes. A Cabelegria é uma organização sem fins lucrativos brasileira fundada em 2013 por Mariana Robrahn junto com Mylene Duarte com o objetivo de arrecadar doações de cabelo para confeccionar e doar perucas gratuitamente a pacientes com câncer e pessoas que sofrem com queda de cabelo.

Cabelegria em Ação em Campinas (Foto: Acervo)

Cabelegria em Ação na Santa Casa. (Foto: Acervo)
Hoje, a Cabelegria se tornou uma das maiores ONGs do país com mais de 420 mil doações recebidas e mais de 14 mil perucas doadas. As perucas são confeccionadas artesanalmente Depois da confecção, elas passam por um processo de higienização antes de estarem prontas para a entrega. A ONG atende pacientes com câncer e com outras patologias de todo o Brasil, basta fazer um cadastro simples no site: https://www.cabelegria.org/

Instruções para doação (Imagem: Cabelegria)

Cabelegria em ação em Campinas (Foto: Acervo)
Mas para que a transformação no espelho aconteça na vida de pacientes como a Joyce, o caminho entre a mecha doada e a peruca pronta passa por um processo artesanal. É nas mãos dos voluntários que a solidariedade ganha forma. O voluntário José Nelson não tinha experiência na confecção de perucas e após um curso sobre prótese capilar, José encontrou na internet a Cabelegria, onde viu a possibilidade de contribuir “Eu acho que sempre que a gente tem um talento, um dom, uma facilidade para fazer algo, isso além de ser usado nosso benefício para deve ser usado benefício próximo também, eu vejo como uma forma de agradecimento ao fato de eu poder ter essa habilidade que para muitos é tão especial e pode transformar mesmo bastante em algumas pessoas”, compartilha José.
As obras realizadas por José Nelson possuem um valor especial devido às experiências familiares “Depois que eu já era voluntário na Cabelegria, a minha tia passou pelo processo de tratamento e precisou de uma peruca e foi através deles que a gente conseguiu fazer a peruca para ela, então isso me tocou de uma maneira muito particular, porque ela certamente não poderia ter comprado uma da forma que ela ganhou. Foi muito gratificante para ela e para mim também”, conta o voluntário.

Peruca confeccionada por José Nelson (Foto: Acervo pessoal)

Peruca confeccionada por José Nelson. (Foto: Acervo pessoal)
José Nelson também foi surpreendido com relatos de pessoas que foram agraciadas com suas confecções, motivo pelo qual se sente estimulado a continuar realizando o seu trabalho. “Foi em um dia que eu estava fazendo trabalho voluntário em que uma das pacientes foi buscar peruca e ela falou quanto aquilo era importante para ela. Então, assim, vê uma pessoa, vê o quanto isso é importante e de saber que que não é só estética. É uma questão da pessoa se ver no espelho, se reconhecer, se sentir bem, se sentir menos doente de alguma forma. Isso é muito importante porque traz para ela um alento. Pessoas que estão passando por um processo que vai ser tão difícil tendo um pouco de carinho, um pouco de força para seguir o seu caminho nessa luta. É muito importante e é muito bonito, então eu fico muito impressionado sempre que eu vejo alguém recebendo as ações.” compartilha o profissional.
A transformação da dor em recomeço é a união entre o apoio médico e psicológico com redes de apoio como ONGs, que além de auxiliarem fornecem recursos que geram forças para superar a doença e apoio para um novo recomeço. Uma simples mecha de cabelo doada ou algumas horas de trabalho voluntário têm o poder de devolver a alegria e a autoestima de quem precisa se reestruturar. Esse círculo do bem é contínuo e está sempre de portas abertas para acolher novas doações, novas parcerias e novos voluntários dispostos a doar o próprio tempo.
Conhecer o próprio corpo, praticar o autoexame com frequência e atenção são passos indispensáveis. Mais do que isso, é fundamental exigir e acompanhar junto ao médico a realização dos exames periódicos de rotina, como a mamografia e a ultrassonografia. A detecção precoce continua sendo a ferramenta mais poderosa para salvar vidas. O outubro Rosa é um movimento que marca o mês, mas a atenção à saúde e a prática da empatia são compromissos diários.
Fernanda Rodrigues – 6º Período
Marcelle Menendes – 6º Período





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