Estudantes que são mães enfrentam dificuldades para permanecer no ensino superior brasileiro devido à necessidade de conciliar maternidade, trabalho e rotina acadêmica. A falta de rede de apoio, os desafios financeiros e a sobrecarga de tarefas estão entre os fatores que contribuem para a evasão de estudantes mulheres nas universidades.

Segundo o Censo da Educação Superior 2024, divulgado pelo Inep, o Brasil possui mais de 9,9 milhões de estudantes matriculados no ensino superior. Dentro desse universo, milhares de mulheres precisam conciliar a formação acadêmica com os cuidados maternos, realidade que pode gerar desafios relacionados à permanência e ao aproveitamento dos estudos.

Pesquisas recentes indicam que a maternidade ainda é um dos principais fatores que dificultam a permanência feminina no ambiente universitário. Um artigo científico intitulado “Mães Universitárias: desafios e possibilidades entre a maternidade e a vida acadêmica”, publicado em 2024 na revista científica Ensino & Educação Ciências Humanas, Sociais e da Saúde, aponta que mães estudantes enfrentam sobrecarga física e emocional, dificuldades financeiras, falta de apoio institucional e preconceito no ambiente acadêmico. Os autores também observam que a ausência de redes de apoio e de políticas de permanência pode dificultar a continuidade da graduação.

A estudante de medicina veterinária Emanuelle Nunes conhece essa realidade de perto. Quando sua filha, que hoje tem três anos, nasceu, Emanuelle precisou trancar a faculdade por tempo indeterminado para se dedicar totalmente à maternidade.

Emanuelle Nunes, estudante de medicina veterinária (Reprodução: Agência UVA Barra)

Emanuelle conta que já sabia que não teria uma rede de apoio para conseguir conciliar a faculdade e a maternidade. Hoje, com a filha em uma creche de horário integral, ela consegue dividir o tempo entre os estudos, o estágio e os cuidados com a criança. Ainda assim, afirma que a rotina exige esforço constante e que a necessidade de estudar além da sala de aula, enquanto cuida da casa e da filha, “é uma das maiores dificuldades

A estudante conta também que, em alguns momentos, precisa levar a filha para a faculdade devido à ausência de suporte familiar e à incompatibilidade e por conta de horários que não conseguem ser conciliados, mas que, mesmo diante desses desafios, ela afirma que nunca pensou em desistir definitivamente do curso. A principal motivação para continuar estudando vem justamente da filha.

Emanuelle Nunes, realizando aulas práticas ao lado de sua filha (Reprodução: Agência UVA Barra)

Apesar da rotina intensa, Emanuelle afirma que a filha se tornou seu principal incentivo para continuar na universidade. Segundo ela, “hoje, a minha motivação é ela. Conseguir proporcionar uma boa vida para minha filha e trabalhar com o que amo”.

A realidade de Gabrielle de Oliveira também mudou completamente após descobrir a gravidez durante o penúltimo período da faculdade. Estudante de tecnologia da informação, ela precisou reduzir a quantidade de matérias e adaptar a rotina para conseguir continuar estudando.

Gabrielle de Oliveira, estudante de Tecnologia da Informação (Reprodução: Agência UVA Barra)

Gabrielle relata que precisou reorganizar a rotina acadêmica durante a gestação para conseguir acompanhar os cuidados com a saúde. Segundo ela, “agora estou dando mais prioridade à gestação, fazendo exames e indo aos médicos. Diminui algumas matérias para não reprovar por falta”.

Gabrielle de Oliveira, realizando a graduação em EAD no período da gestação (Reprodução: Agência UVA Barra)

Durante a gestação da Gabrielle, o trajeto diário até a universidade passou a gerar preocupação constante. O receio de acidentes em vagões lotados fez com que ela reconsiderasse a modalidade presencial e migrasse para o ensino a distância.

 Segundo ela, o metrô lotado causava medo constante, principalmente pelo risco de esbarrarem na barriga dela. A estudante relata que já chegou a ser atingida algumas vezes sem intenção durante o trajeto.

Além do desgaste físico, Gabrielle afirma que também enfrentou inseguranças emocionais e dúvidas sobre a continuidade da graduação. Ela revela que pensou em desistir diversas vezes, mas decidiu seguir com o curso por considerar a formação profissional essencial para garantir um futuro melhor para o filho. “Pegar meu diploma agora é um objetivo e uma certeza de que preciso dele para dar um futuro melhor ao meu filho.”

Professora universitária Marcela Candeias (Reprodução: Agência UVA Barra)

Segundo a pedagoga e professora universitária Marcela Candeias, histórias como essas mostram a necessidade de um olhar mais humano dentro das instituições de ensino.“Acredito que a empatia seja a solução. Muitas mães precisam faltar para levar o filho ao médico ou resolver situações urgentes”, a professora afirma.

Para ela, medidas simples poderiam ajudar na permanência dessas mulheres na universidade, como maior flexibilidade acadêmica, atividades adaptadas e até espaços voltados para crianças dentro das instituições. “Talvez um espaço kids fosse interessante para que mães possam levar os filhos caso precisem.”

O Ministério da Educação aponta que políticas de permanência estudantil e assistência acadêmica são essenciais para reduzir os índices de evasão no ensino superior, principalmente entre estudantes em situação de vulnerabilidade social. Em 2024, o governo federal ampliou os investimentos em programas de auxílio permanência, alimentação, moradia e apoio acadêmico, com o objetivo de garantir que universitários consigam permanecer na graduação até a conclusão do curso. Para as mães universitárias, essas iniciativas podem representar mais estabilidade financeira e melhores condições para conciliar os estudos com a maternidade.

Neste Dia das Mães, histórias como as de Emanuelle e Gabrielle mostram que a maternidade dentro da universidade vai muito além dos desafios. Para muitas mulheres, os filhos se tornam a principal motivação para continuar estudando e transformar o futuro através da educação.

Isabella Mattos – 7º Período

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