Vontades X Obrigações

Os dilemas da Geração Z em escolher entre o que deseja e o que esperam dela

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Fotografia: Tayane Fernandes

O sonho de crescer se tornou pesadelo. Para muitos jovens, essa tarefa tem sido angustiante. Estudar, se formar, ter uma carreira de sucesso e uma vida bem-sucedida – de preferência tudo antes dos 30 anos. São planos estabelecidos mesmo antes do nascimento da geração Z, ou seja, todas as crianças que nasceram a partir da metade da década de 90. A questão é que, talvez, esse seja um estilo de vida ultrapassado para a juventude do novo século XXI. Costumes e tradições são mesmo enraizados em toda família: eles passam de pai para filho ao longo dos anos. Mas, quem sabe, os ideais que a sociedade ainda está tentando introduzir não sejam mais compatíveis com a realidade.

Nesse limbo entre fazer o que os outros julgam certo e fazer o que se deseja é onde inúmeros jovens se encontram atualmente, acabando, consequentemente, por desenvolver inseguranças e ansiedade em relação ao futuro. Hoje, com 20 anos, a estudante de Jornalismo Isabelle Amancio conta como foi lidar com essas expectativas: “As pessoas insistiam que eu não seria feliz ou rica se seguisse alguma profissão na área de Humanas. Achavam que eu deveria cursar algo em Exatas ou Ciências. E por mais que eu argumentasse que eu não queria ou ainda estava pensando, nunca era suficiente para os outros. E isso acabou aumentando minha ansiedade”.

Problemas como o de Isabelle também têm sido enfrentados por muitos jovens, sendo a ansiedade um dos principais vilões. Segundo uma pesquisa realizada em 2016 pela Fundação Varkey, em parceria com a Populus, a pressão exercida pela escola, perdendo apenas para os problemas financeiros, é uma das maiores fontes de ansiedade para os adolescentes brasileiros entre 15 e 21 anos. A questão se agrava quando a pessoa não consegue contornar essa tensão, que foi o caso da professora de Inglês e cake designer, Iris Deschaumes, de 20 anos. Ela conta sobre a cobrança que fazia em si mesma devido à constante preocupação de orgulhar sua família. “A pressão colocada em mim me tornou cada vez mais ansiosa e essa ansiedade só me atrapalhava em atingir meus objetivos”.

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Fotografia: Tayane Fernandes

A tendência desses transtornos mentais entre os jovens tem aguçado a curiosidade de estudiosos e pesquisadores, principalmente pelo paradoxo que representa: o sofrimento em um período da vida associado às descobertas, alegrias e amizades, não a tristezas e doenças mentais. A maior indagação é sobre o que estará causando tanta conturbação à geração Z. A teoria mais plausível, que também tem estreita relação com as mudanças dos pensamentos juvenis, é o fato de serem nativos digitais. Ou seja, todos os bebês nascidos depois de 1995 não sabem o que é um mundo desconectado da internet. Seu crescimento foi em conjunto com avanços tecnológicos, que permitiram a eles um acesso incalculável às mais variadas informações, algo que seus pais e avós não desfrutaram na infância ou adolescência.

Essa possibilidade de obter cada vez mais conhecimento se tornou fácil devido às plataformas tão acessíveis. Não é à toa que a última pesquisa, realizada em 2015 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelou que 12,5 milhões de jovens estão conectados à internet no Brasil. Proporções como esta despertam uma expectativa maior sobre o futuro da nova geração. Antonio Carlos Inácio, Gerente Distrital de Vendas da Eurofarma e pai da Isabelle, enumera alguns pontos positivos dessa conexão diária para a vida de seus filhos. “A tecnologia ajuda a agilizar determinados processos, facilitando o aprendizado, a realização de tarefas e, principalmente, a comunicação. Não quero parecer clichê, mas estamos em um mundo globalizado”.

É um pensamento compreensível. Hoje, a geração Z tem acesso a todas as notícias, sejam elas nacionais ou internacionais. É possível aprender outras línguas ou cursar uma faculdade através da tela do computador. Fronteiras já não existem mais, já que reuniões e amizades podem ser feitas facilmente em qualquer lugar do mundo, dependendo apenas de um aparelho com conexão à internet. Tudo isso será uma enxurrada de informações, abrindo horizontes nunca vistos antigamente. São tantas novas possibilidades que está se tornando impossível processá-las e escolher, tão rapidamente, o caminho que deseja seguir, principalmente quando se trata de pessoas com vinte e poucos anos.

A expectativa de ter uma vida e uma carreira estáveis até de 30 anos já não é mais primordial, não para os jovens, principalmente quando há tantos caminhos para ainda serem descobertos. “Não dá para você se conhecer, saber quem você é ou o que quer de uma hora para outra. Isso leva tempo e amadurecimento”, diz Isabelle ao contar que ainda hoje tem muito o que crescer. Fazer tantas cobranças em relação ao futuro pode provocar danos mentais. A psicóloga e coordenadora pedagoga Martha Rodrigues Reis alerta sobre alguns riscos que o estresse excessivo pode causar. “Um dos assuntos que estão muito em pauta, vamos dizer assim, é a depressão. Com ela transitam a angustia, a insatisfação, o isolamento e a ansiedade. A família nesse momento é muito importante”.

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Fotografia: Tayane Fernandes

Há um alerta sobre o crescente número suicídios causados pela depressão nessa faixa etária. Dados do Mapa da Violência 2017, obtidos pela BBC Brasil, mostram que, em 12 anos, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014. Ou seja, em números absolutos, foram 2.898 suicídios de jovens de 15 a 29 anos em 2014. Por isso, para reverter essa tragédia, a presença da família é essencial. No entanto, buscar reconhecer o problema na última hora não remediará as consequência de anos de ausência parental. “A função dos pais é estar sempre observando, estar sempre ao redor do filho, acolhendo e ouvindo acima de tudo. Só assim os pais serão capazes de detectar alguns detalhes para poder ajudar seu filho”, aconselha Martha.

Quando se trata do momentos importantes, como a escolha de uma profissão que definirá maior parte da vida, essa presença familiar é imprescindível para o jovem. Isabelle reconhece a importância dessa união, pois, para ela, poder contar com seus pais e desabafar sobre tudo o que estava sentindo a ajudaram a melhorar suas crises de ansiedade. Entretanto, não é sempre que situações semelhantes a essa se repetem. É comum os pais interferirem negativamente nas decisões do filho, como aconteceu com a Iris, quando seu pai não a apoiou na escolha de seu curso. “Um ano após prometer que ia me ajudar, meu pai mudou de ideia e disse que Gastronomia não era um curso apropriado para mim e sim que eu deveria fazer algo mais intelectual”. Hoje, trabalhando em outras áreas da sua preferência, ela ainda lamenta o acontecimento por ter sido baseado na intolerância.

Saber a diferença entre julgar de acordo seus desejos e ajudar um filho a seguir seu próprio caminho é a principal tarefa dos pais. Margarida Veríssimo, aposentada e mãe de Iris, conta que participa das decisões da filha, mas sempre considera o que for melhor para ela. “Oriento a manter um caminho seguro nos estudos, pois sem uma boa formação não se chega a lugar nenhum. Afinal, nós, os pais, sempre queremos o melhor para nossos filhos”. Uma família só alcançará esse objetivo quando todas as individualidades, as preferências e os anseios que cada jovem possui forem compreendidos. Mas enquanto a sociedade não amadurece e não aceita o estilo de vida de uma nova geração, os jovens devem continuar defendendo seus sonhos daqueles que tentam escolher por eles o seu futuro, assim como Isabelle diz fazer: “Para todas essas pessoas, só agradeço a opinião, mas sigo minha intuição e continuo fazendo o que faz meu coração vibrar”.

Tayane Fernandes – 5º período

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