“Eu me sentia extremamente burra.” Foi assim que a estudante de jornalismo Madu Souza, 20 anos, descreveu o relacionamento que decidiu encerrar logo no começo. O parceiro nunca proibia nada de forma explícita, era de forma delicada, o controle vinha de um jeito “bonitinho”, que a fazia questionar a própria capacidade e a própria autonomia. “Por um tempo eu fui submissa, até perceber que eu não podia aceitar isso de um cara que eu acabei de conhecer, e de qualquer outro”, conta.

O relato de Madu não é um caso isolado. Segundo pesquisa do King’s College London, 31% dos homens da geração Z afirmam que mulheres devem ser submissas dentro do relacionamento, e cerca de um quarto (24%) concorda que uma mulher não deve parecer muito independente e autossuficiente. Já levantamento da Ipsos Brasil mostra que 56% dos brasileiros entendem que a igualdade de gênero depende da presença de mulheres em cargos de liderança. O contraste revela que, embora haja reconhecimento da importância da liderança feminina na esfera pública, muitas normas culturais sobre o papel da mulher no relacionamento privado ainda persistem. Especialistas afirmam que mudanças estruturais no mercado e nas instituições não se traduzem automaticamente em igualdade nos comportamentos e nas relações pessoais.

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Fonte: King’s College London e Ipsos Brasil

Em pleno século XXI, com amplo acesso à informação e intensos debates sobre igualdade de gênero, os números evidenciam a persistência de desigualdades que, como aponta o sociólogo Pierre Bourdieu, não se sustentam apenas pela imposição direta de poder, mas sobretudo por sua naturalização no cotidiano, quando passam a ser vistas como legítimas, ou até desejáveis.

Para Madu, esse tipo de comportamento e pensamento é reflexo da criação e da cultura em que o homem, ou até mesmo as mulheres que se submetem e apoiam essa questão, estão inseridos. “Esse pensamento passa de geração em geração e coloca a mulher sempre em posição de obedecer, ser diminuída ou vista como submissa. É triste ver isso se espalhando, porque a geração Z tem acesso à informação, mas muitos não verificam nada e tomam suas verdades como absolutas. Isso gera ódio, desrespeito e, em alguns casos, pode se tornar algo físico. Poderíamos usar essa era de informação para aprender a respeitar as mulheres, mas muitos acabam reforçando velhos padrões de submissão”, comenta.

Em contrapartida, Júlia Cunha Lima, 18 anos, estudante de Direito, reconhece que a dinâmica entre homens e mulheres ainda envolve papéis distintos dentro do relacionamento. “Não acredito que a palavra certa seja submissão, mas sim sabedoria. Para mim, a palavra final pode ser do homem, sim, mas isso deve ser fruto de diálogo entre as duas partes, e não de imposição”, disse Júlia. Ela reforça que a mulher deve ter autonomia, mas que os papéis dentro de casa podem se complementar. “Eu acredito que dentro de uma casa o homem deve ser o provedor principal, e isso não significa que a mulher não possa ou não deva trabalhar. Mas acredito que o papel principal da mulher é cuidar da casa e dos filhos, sendo sábia e organizada, sem que isso signifique submissão.”, afirma Júlia Lima.

Segundo a estudante, a linha entre submissão e sabedoria se define pela presença do diálogo e da negociação dentro do relacionamento. “O limite da submissão seria quando uma decisão é imposta sem conversa ou acordo. Para mim, o relacionamento só funciona se houver diálogo e compreensão mútua.”, relata Júlia.

Tradição e religião moldam expectativas sobre gêneros

A religião e a tradição histórica influenciam expectativas sobre submissão feminina. Para Max Weber, a religião e a cultura têm papel central na manutenção de valores sociais e hierarquias. Hoje, isso se traduz na forma como jovens da geração Z percebem o papel da mulher.

Larissa Carolina, 23 anos, estudante de Direito, compartilhou sua percepção sobre a influência de fatores culturais e religiosos nos papéis de gênero. “Eu creio que vem uma pressão cultural e religiosa por trás desses pensamentos. Por exemplo, minha mãe, que é evangélica, sempre me ensinou que o homem é a cabeça da casa, e que o papel da mulher é ajudar e cuidar do lar. Essa visão vem sendo transmitida de geração em geração, da minha avó para minha mãe, e assim por diante”, explica Larissa.

Enzo Salgado, 19 anos, estudante de Direito, ressalta que a pressão cultural e religiosa influencia o comportamento, mas que fatores pessoais, como autoestima e postura, também têm grande peso. “Quando não identificada, a submissão pode levar a situações de abuso, reforçando como normas transmitidas historicamente se perpetuam de formas sutis e muitas vezes invisíveis”, alerta Enzo.

Além disso, ele observa que “tradicionalmente, muitas religiões tratam a mulher como um ser submisso ao homem” e reforça a importância de escolhas conscientes. “Cabe a cada pessoa decidir como lidar com isso, e reconhecer que a submissão não deve ser aceita como regra na vida de ninguém”.

Para a estudante de jornalismo Carolina Alves, de 20 anos, os fatores culturais e religiosos ainda influenciam o comportamento de homens e mulheres. “A questão cultural influencia esse pensamento, pela questão religiosa, já que antigamente, o patriarcado determinava que o pai manda e a mulher era considerada objeto, e isso ainda reflete em muitas relações hoje”, explica Carolina.

A estudante comentou sobre desigualdades mais amplas na sociedade derivadas da cultura e religião. “Hoje em dia ainda existem várias barreiras, que foram implantadas a muitos anos atrás, e muitos homens ainda acham que a mulher não pode fazer nada. Parece que estamos em 1912”. Ela também reforçou que a conscientização sobre esses comportamentos é essencial para que a submissão não seja naturalizada.

Cultura e tradição limitam a autonomia feminina

A filósofa Simone de Beauvoir destaca que a opressão feminina se naturaliza através da socialização, reforçando papéis que limitam a autonomia. A geração Z, apesar da consciência maior sobre igualdade, ainda enfrenta resistência cultural e familiar.

Na ótica masculina, Henrique Santana, 23 anos, estudante de Engenharia Elétrica, apresenta sua visão sobre submissão nos relacionamentos, diferenciando a parceria de subserviência. “Submissão, na forma mais direta, é se subjugar a alguém, aceitar estar abaixo e obedecer sem questionar. Mas de forma mais ampla, pode ser um acordo entre as partes, em que ninguém é diminuído e ambos se beneficiam do relacionamento”, explica Henrique.

Ele critica a submissão tradicional, em que a mulher não pode tomar decisões ou ocupar espaços que são dela por direito. “O problema é quando a mulher é totalmente subjugada. Isso é insustentável e prejudica tanto ela quanto o relacionamento.” Para o estudante, um relacionamento equilibrado permite papéis complementares. “É natural que o homem assuma responsabilidades financeiras ou de gestão da casa, arcando com ônus e bônus das decisões, enquanto a mulher participa ativamente das escolhas. Isso não é subserviência, mas parceria”, afirma.

Henrique ainda alerta para os perigos da submissão distorcida. “Quando entendida como controle absoluto do homem, transforma-se em assédio, banalização do estupro ou até violência física. É essencial educação e diálogo desde cedo para que essas práticas não se perpetuem”, comentou.

Thais Andriele, 24 anos, estudante de Jornalismo, relata que, em sua família, algumas mulheres aceitavam como natural que o homem tivesse a última palavra. “Diziam que ‘a mulher é o pescoço e o homem é a cabeça’, e que ele só está cuidando de você, ele está protegendo o lar”, conta Thais.

A estudante ressalta que os homens da geração Z reproduzem padrões transmitidos por gerações anteriores. “Não dá para separar o cultural do religioso, os dois andam juntos, e os dois influenciam. A culpa não é só da criança, mas também dos pais. Por outro lado, algumas mulheres da geração Z tentam criar filhos de maneira diferente, buscando equilíbrio e igualdade”, conclui.

Já para Miguel Almeida, 20 anos, estudante de Direito, a submissão ideal é vista como parceria. “Pela etimologia da palavra, submissão é os dois estarem debaixo de uma mesma missão. O casal define juntos quem vai tomar a frente em determinadas situações, considerando cultura, costumes e escolhas individuais”, explica. Ele reconhece, no entanto, que os homens podem reagir de maneiras opostas diante da independência da mulher. “Quando a mulher começa a se expor, mostrar autonomia, isso desperta inseguranças no homem. Alguns tentam se impor; outros acabam cedendo mais. Cabe a cada um decidir como lidar com isso”, comenta.

Miguel também aborda movimentos contemporâneos da geração Z que reforçam o patriarcado, como o Red Pill, que intensifica o machismo. “Não é uma influência dos pais, mas sim das amizades ou da internet, que dizem ‘não deixe a mulher se sobrepor a você’. Isso cria uma nova forma de machismo, que precisa ser entendida e discutida para não se perpetuar”, finaliza o estudante de Direito.

João Pedro Pereira Nunes, 15 anos, estudante, define submissão em relacionamentos como poder exacerbado. “Submissão é quando uma pessoa tem que obedecer à outra, e quando alguém se acha com poder acima do parceiro, ao ponto de tratar o outro mal”, afirma. João comentou também sobre pressões externas. “Dependendo da região, isso pode ser normal, mas não é certo”, destacando que tradições culturais ou religiosas não justificam a submissão. “O ambiente em que se vive pode influenciar a geração Z, fazendo com que jovens acreditem que esse comportamento é normal, quando não é”.

Movimentos e cultura reforçam velhos padrões

Eduardo Bianchi, 45 anos, doutor em Comunicação, observa que, apesar dos avanços, parte dos homens da geração Z ainda mantém visões patriarcais sobre o papel da mulher. “É animador ver que já existe uma parcela dessa geração que reconhece o valor e a capacidade da mulher no mercado de trabalho, ocupando cargos importantes e mostrando competência equivalente ou até superior à dos homens. Mas, infelizmente, ainda vivemos em um mundo patriarcal, e muitos comportamentos antigos se perpetuam”, explica.

Ele critica movimentos contemporâneos, como o Red Pill, que reforçam padrões machistas. “Esse movimento tenta resgatar uma visão arcaica da mulher como objeto ou prêmio a ser conquistado, valorizando apenas atributos físicos ou a capacidade de servir, em vez de reconhecer personalidade e caráter. É um pensamento completamente reprovável que distorce tudo o que a luta das mulheres construiu ao longo dos anos”, alerta Eduardo.

O especialista ressalta que a formação familiar também influencia essa dinâmica. “Muitos jovens homens foram criados por mães que assumiram papéis duplos, e a ausência de referências masculinas responsáveis impacta a percepção de gênero. Por isso, mesmo que uma parte da geração Z esteja aberta à igualdade, há forças culturais e sociais que ainda reforçam padrões antigos em escolas, universidades, ambientes de trabalho e redes sociais”, conclui Eduardo.

A geração Z revela que o acesso à informação, por si só, não garante transformações profundas nas relações pessoais. As diferentes visões sobre papéis de gênero mostram que, mais do que uma ruptura, o que se observa é um cenário de disputa entre novos ideais e antigos padrões, ainda enraizados na cultura e na experiência cotidiana.

Entenda os conceitos citados:

  • Pierre Bourdieu: sociólogo; para ele, desigualdades se sustentam pela naturalização no cotidiano, quando passam a ser vistas como legítimas.
  • Max Weber: filósofo e sociólogo; atribui à religião e à cultura papel central na manutenção de valores sociais e hierarquias.
  • Simone de Beauvoir: filósofa; destaca que a opressão feminina se naturaliza pela socialização, reforçando papéis que limitam a autonomia.
  • Red Pill: movimento citado pelos entrevistados que, segundo Eduardo Bianchi, resgata a visão da mulher como objeto ou prêmio a ser conquistado.

Duda Nicolich – 3° período de Jornalismo

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