“É um exagero não estarmos em nenhum lugar, nas ruas, nas urnas, nos palcos. É um exagero não podermos acessar espaços públicos por falta de acesso. É um exagero o acesso ser feito por quem não precisa dele.” A fala do cineasta e ator Victor Di Marco escancara a realidade de milhões de brasileiros que convivem diariamente com o capacitismo—muitas vezes velado, mas estrutural.
No Brasil, 14,4 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência. Representam 7,3% da população, segundo o IBGE. Ainda assim, continuam sendo invisibilizadas ou representadas sob um olhar piedoso, como se fossem frágeis, infantis ou “anjos.” Mas esse cenário vem, pouco a pouco, sendo confrontado pela arte e pelas redes sociais—que têm se tornado espaços fundamentais para a conscientização e a ocupação de lugares de fala.
A novela Dona de Mim, da TV Globo, apresentou ao público o personagem Peter (Pedro Fernandes), um jovem com deficiência física que trabalha na padaria do pai. Peter lida com perguntas invasivas sobre seu corpo com humor e criatividade, desarmando estereótipos e revelando, com leveza, a crueldade por trás da curiosidade alheia. Ao fazer isso em horário nobre, o personagem ocupa um espaço historicamente negado aos corpos dissidentes: o da normalidade cotidiana.
No cinema, o curta-metragem Zâgero, dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli, mergulha fundo nas camadas do preconceito. Finalista do Prêmio Grande Otelo de 2025 e vencedor do Festival de Cinema de Vitória, o filme mistura estética de videoclipe com uma narrativa sarcástica e catártica. A provocação, aqui, não é gratuita: é uma estratégia política para subverter a lógica do riso. Não se ri mais das pessoas com deficiência—ri-se com elas.
Como explica a psicóloga Carol Lessa, o capacitismo é mais amplo do que xingamentos ou exclusões evidentes. “Ele pode se manifestar na falta de acessibilidade dos espaços, no planejamento urbano, ou mesmo no prejulgamento de que a pessoa com deficiência é menos capaz de exercer determinada atividade.”
Nem sempre, porém, a visibilidade vem sem dor. A arquiteta Thaís Eleotério, autista atípica diagnosticada tardiamente, viu sua presença nas redes sociais crescer após compartilhar experiências pessoais. Mas junto da notoriedade veio o assédio, os comentários invasivos e uma onda de capacitismo velado—o que a levou a reavaliar sua exposição online.
“Hoje meu conteúdo está se redirecionando porque, mesmo com esse “hiato” de criação de conteúdo, eu estive estudando e pesquisando sobre autismo. Então agora quero compartilhar de modo mais focado a trazer o meu conhecimento técnico pra além de só a minha vida”, conta. Thaís quer mostrar que o autismo vai além das imagens fofas e palatáveis. Ela é crítica às produções com tendências padronizadoras da condição autista, em especial os realities shows: “A representação que vem trazer alguém que fala sobre coisas “desagradáveis” ainda assim tentam enfeitar e diminuir a relevância. Enquanto basta dar um google que você vai ver a quantidade de pessoas autistas falando e questionando sobre sexualidade e gênero.”
Representar não basta: é preciso escutar.
Um aspecto importante é que há um movimento consistente se formando no âmbito artístico. Entre elas a laureada peça Meu Corpo Está Aqui?, os filmes Meu Nome é Daniel e Assexybilidade, o trabalho do multiartista Lúcio Piantino, a literatura de Carlos Eduardo Pereira, todos esses nomes têm em comum um aspecto: mostrar que a deficiência não é sinônimo de limitação, muito menos de pureza e de fragilidade, são trabalhos que instigam as pessoas a verem pessoas como deficiências antes de tudo como pessoas
Mas ainda há um longo caminho pela frente. Thaís lembra que o problema não está apenas na ausência de representações, mas também na forma como elas são recebidas. “Parece que só somos validados enquanto autistas se passamos no crivo da suficiência de esquisitice Então, ter o maior espectro possível de representação é imperativo. Será a nossa permanência e existência nos lugares comuns que vai fazer essa mentalidade ser alterada..”
Por isso, mais do que se ver nas telas, é preciso permanecer. Estar nos palcos, nas câmeras, nos feeds e nas calçadas. O capacitismo será encerrado com o final de uma novela ou ao subir os créditos de um filme, mas cada história contada, cada espaço ocupado e voz levantada ajudam a criar uma rede de mudanças para que exista um comportamento mais empático e consciente.
Márcio Weber – 7° período









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