No Dia Nacional da Luta Contra a Violência à Mulher, especialistas destacam a educação como chave para prevenir agressões e promover igualdade.
No dia 10 de outubro, é marcado o Dia Nacional da Luta Contra a Violência à Mulher. Data que foi estabelecida em 1980 após manifestações de mulheres nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo em protesto contra o aumento dos crimes de gênero no Brasil. De acordo com o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na última década (2012-2022), ao menos 48.289 mulheres foram assassinadas no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, os homicídios femininos também mostraram crescimento, chegando a 3.924 vítimas, um aumento de 0,9% em relação a 2012. No país, 36,6% dos assassinatos de mulheres foram classificados como feminicídios.

Para Flávia Pinto Ribeiro, presidente da Comissão OAB Mulher, o Dia Nacional da Luta contra a Violência à Mulher é crucial para conscientizar sobre as diversas formas de violência que afetam mulheres no Brasil, especialmente quando se aplica uma abordagem que considera fatores como raça, gênero e deficiência. Segundo a presidente, a violência contra mulher não é só física, mas também psicológica, econômica, política e institucional, afetando de forma desproporcional mulheres que estão nas margens sociais, como mulheres negras, trans, indígenas e com deficiência. “É importante destacar também que, em uma análise de gênero, todas as mulheres são afetadas por uma cultura que perpetua a desigualdade, a misoginia e a violência de gênero”, comenta.
“Conscientizar sobre essas questões é o primeiro passo para transformar uma cultura que normaliza a violência em uma cultura que prioriza a dignidade, a igualdade e a segurança para todas as mulheres, independentemente de sua raça, condição física ou identidade de gênero”, comenta Flávia Ribeiro.
A presidente relata que, para enfrentar de maneira eficaz a violência de gênero, é essencial o desenvolvimento de políticas públicas que respeitem as especificidades regionais e que essas sejam construídas em diálogo com as comunidades afetadas e que abordem questões de raça, deficiência e identidade cultural. “Educar e conscientizar a sociedade sobre as questões de gênero, raça e diversidade é uma peça central na luta contra a violência”, alega.
Flávia Ribeiro comenta em relação ao que a sociedade pode fazer para incentivar mulheres que sofrem violência a denunciarem seus agressores e procurarem ajuda, criando um canal de apoio e aconselhamento para as vítimas, enfatizando que familiares e pessoas conhecidas precisam ficar atentas em qualquer situação suspeita para que possam dar o devido apoio. “Campanhas de conscientização devem destacar que as mulheres não estão sozinhas e que existem serviços especializados para ajudar em casos de violência”, diz.
A presidente destaca a importância da educação sobre violência de gênero nas escolas e comunidades, comentando que se informar sobre o assunto ajuda a desmistificar estereótipos de gênero e a promover valores de empatia, diversidade e respeito, independente da idade de quem está ouvindo. “Esse processo educativo é fundamental para promover uma cultura de paz e respeito, onde os relacionamentos sejam baseados na igualdade, na compreensão e na não-violência, ajudando assim a reduzir a ocorrência de casos de violência de gênero em todas as suas formas”, afirma.
Flávia também alega que o avanço das tecnologias digitais e o uso das redes sociais potencializa as campanhas de prevenção, permitindo a criação de conteúdos educativos e engajadores que podem alcançar milhões de pessoas rapidamente, ajudando a espalhar informações vitais sobre direitos, formas de identificar abusos e os canais de apoio disponíveis. A presidente também afirma sobre a importância da privacidade e o anonimato que a internet oferece, permitindo que as vítimas busquem informação e ajuda, principalmente as vítimas de violência doméstica, ao qual o agressor vive no mesmo ambiente que a vítima. “Por meio dessas plataformas, é possível alcançar um grande número de pessoas rapidamente, disseminando informações e recursos sobre os direitos das mulheres, formas de identificar abusos e os canais de denúncia e apoio disponíveis”, destaca.
De acordo com Flávia Sanna, doutora e mestre em Direito Penal pela UERJ e professora universitária das disciplinas penais na UVA Tijuca, a importância de ter uma data como o Dia Nacional da Luta Contra a Violência à Mulher é a oportunidade de discussão sobre o assunto para que se possa se pensar em soluções plausíveis que ajudem nessa luta. “O primeiro passo no enfrentamento de um problema é dar nome a ele. A importância de um Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher começa por levar o assunto à mesa de debates do brasileiro”, argumenta.
A doutora afirma que para combater a violência contra a mulher, é fundamental que as ações do Legislativo, Judiciário e da polícia estejam integradas, dando prioridade para esses casos de violência. “Legislativo para elaboração e aprovação de textos legais que disciplinam o assunto; Judiciário para dar a correta aplicação ao texto da lei; e polícia para ser o primeiro e imediato amparo a essas vítimas no momento em que a violência ocorra”, orienta.
Sanna enfatiza que parar de julgar as vítimas e questioná-las é um ótimo começo para o encorajamento delas de denunciarem as violências que sofreram, sem deslegitimar suas vivências. “Infelizmente muitas pessoas se empenham em julgar a mulher que conta a própria história de violência, desestimulando, assim, que outras mulheres procurem justiça”, comenta.
A doutora alega a violência contra as mulheres está profundamente enraizada nas diferenças entre os gêneros e que é necessário ensinar desde a infância sobre igualdade e respeito nas escolas. “Esse é um problema que, infelizmente, precisa ser apresentado desde muito cedo a crianças de ambos os sexos, para tentar que ele não se perpetue pelas mãos dessas mesmas crianças no futuro”, diz Flávia.
“Li uma vez uma frase cuja autoria não sei quem é, mas que é pura verdade: ‘ser mulher é sobreviver menina’. A violência contra as mulheres não nos permite existir no futuro. Nós morremos muito pelas mãos dos homens”, comenta Flávia Sanna.
Flávia Sanna também comenta que mesmo que o vício de telas seja difícil de se combater, que ao menos as mensagens compartilhadas nas redes sociais sejam tão informativas e relevantes quanto as campanhas de prevenção. “Se não se consegue retirar o vício em telas de uma parcela considerável da população da era digital, que ao menos as mensagens propagadas pelas redes sociais seja informativa e tão relevante quanto as campanhas de prevenção contra a violência às mulheres e de apoio às vítimas”, opina.
Para denúncias de quaisquer tipo de violência à mulher, ligue para Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 ou acesse a página da Ouvidoria Nacional de Diretos Humanos (ONDH) do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH).
Isabel Menezes – 1° Período





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