Profissionais da área esclarecem os desafios enfrentados em sala e os resultados positivos do ensino .
O Ensino Religioso nas escolas remonta ao período Colonial. Inicialmente, a Educação no Brasil era majoritariamente controlada pela Igreja Católica, o que refletia o modelo europeu, especialmente o português. A catequese indígena e a educação dos colonos eram centralizadas na transmissão dos seus valores e doutrinas. Com a proclamação da República em novembro de 1889 e a atual Constituição de 1988, que trouxe o caráter laico do Estado, o ensino da religião passou a ser ensinado nas escolas de forma facultativa, visando agregar conhecimento não só sobre a religião católica, mas também sobre outras religiões presentes na sociedade. Professores e alunos têm enfrentado os desafios de lidar com a diversidade religiosa em um ambiente educacional cada vez mais multicultural, o que exige novas estratégias para promover o respeito e a tolerância entre as diferentes crenças. A Agência UVA Barra foi buscar o contexto do ensino religioso em algumas escolas da cidade, entre elas, o Colégio Servita Nossa Senhora Rainha dos Corações e o Instituto Nossa Senhora da Piedade, na Freguesia, além do Colégio Notre Dame, no Recreio dos Bandeirantes.
O professor Marcelo Muzi, que leciona Filosofia , no Colégio Servita Nossa Senhora Rainha dos Corações, é ensino religioso em outros colégios . Há anos em escolas católicas, acredita que a evolução da disciplina é clara. “Hoje, há um esforço crescente em promover o respeito à diversidade religiosa e incluir estudos sobre diferentes tradições de fé, além de questões sobre ética, cidadania e espiritualidade”. Segundo Muzi, a mudança mais significativa foi a abertura para o diálogo inter-religioso e o enfoque no desenvolvimento humano integral.

Apesar das mudanças na disciplina de Ensino Religioso , os desafios permanecem nos inúmeros colégios religiosos. “Um dos maiores desafios é lidar com a pluralidade de crenças e garantir que todos os alunos se sintam respeitados”, relata Marcelo Muzi. Além disso, muitos preconceitos são trazidos de fora da escola, influenciados por tradições religiosas familiares mais dogmáticas. “É necessário promover a tolerância sem parecer que estou favorecendo ou desprezando uma crença específica”, explica.
Estratégias práticas para promover a tolerância religiosa são essenciais para o sucesso da disciplina. Marcelo Muzi destaca o uso de debates e rodas de conversa como formas de incentivar os alunos a compartilhar suas experiências religiosas e entender as crenças dos colegas. “O debate é sempre uma prática que traz ótimos resultados, pois os alunos se sentem incentivados a manifestar suas percepções religiosas”, explica o professor.
O aluno do Colégio Rainha dos Corações, Bernardo Jatahy, é um exemplo claro de como o Ensino Religioso pode ter um impacto positivo. Bernardo sofreu preconceito religioso por um colega por fazer parte de uma religião de matriz africana em sua comunidade, e foi devida às aulas de Ensino Religioso que ele encontrou suporte para enfrentar a situação. A mãe de Bernardo, Natália Jatahy, relatou como o apoio da escola e da família foram cruciais para superar o preconceito. “Com as aulas de religião, Bernardo conseguiu entender melhor o que estava acontecendo, e aprendeu a lidar com o preconceito de maneira saudável, sem se deixar abalar”, conta Natália. A disciplina não apenas o ajudou a compreender a diversidade religiosa, como também reforçou a importância do respeito às diferenças.

A professora do colégio INSP, Instituo Nossa Senhora da Piedade, Ariadini Cunha, conta que notou a rápida adaptação da disciplina às novas diretrizes e a sociedade moderna . “Em 2019, percebi o quanto o Ensino Religioso estava passando por mudanças para adequar-se às normas da BNCC, mas ainda carregava muitas marcas do ensino confessional. As aulas, em sua maioria, falavam sobre o cristianismo”, relata a professora.

Hoje, trabalhando em uma escola católica, Ariadini destaca a necessidade de adaptar a linguagem.Segundo ela, apesar de ser uma escola confessional católica , a disciplina de Ensino Religioso está dentro dos padrões exigidos nos dias atuais. O livro didático , embora tenha uma base cristã , busca realizar um diálogo com as mais diferentes religiões valores universais como a fraternidade.O que permite que os alunos fiquem mais dispostos e confortáveis nas leituras e interações em sala de aula.
Para Ariadini, a intolerância religiosa vista no caso de Bernardo é proveniente em sua maioria das famílias , sendo esse um obstáculo a ser superado : “A grande dificuldade são os comportamentos de falta de respeito e intolerância, apresentados, algumas vezes, não tanto pelas crianças, mas pelas famílias”. A adoção de livros para leituras complementares como “Malala, a menina que queria ir para a escola” tem sido uma estratégia eficaz para abordar preconceitos religiosos e promover debates sobre extremismo e intolerância.
Um exemplo que Ariadini cita com orgulho é a forma como respeita os alunos que não professam a fé cristã. “Certa vez fui fazer a oração da Ave-Maria e pedi licença às crianças que não faziam tal oração. A estagiária de Pedagogia ficou surpresa com a minha postura, pois indicava uma atitude de respeito com as demais crianças”, conta.
Outro ponto importante sobre o ensino religioso seria sobre suas perspectivas futuras . O coordenador de pastoral do colégio Notre Dame Recreio, Guilherme Pontes Costa, de 28 anos, trouxe uma discussão sobre o ensino religioso nas escolas, considerando o cenário atual. Segundo ele, o futuro do ensino religioso não é ruim, visto que a partir do seu contato com a responsável do ensino religioso na Secretaria Municipal de Educação e com profissionais da área há um número maior de alunos solicitando a matéria de ensino religioso do que professores disponíveis. Segundo Guilherme, isso mostra que ainda há grande interesse por parte dos alunos em aprender e desenvolver sobre a disciplina de ensino religioso. Ele também afirma que em uma de suas pesquisas de campo para o programa de rádio ‘’Vicariato Episcopal para educação’’ da arquidiocese do Rio de Janeiro, o teólogo entrevistou uma professora do município que afirmou ter muitos alunos engajados em sala de aula e que o ensino religioso deveria permanecer nas escolas, pois agrega não só bagagem cultural sobre diversas religiões, mas também valores éticos e morais.

Ana Luiza Duarte – 4° Período





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