As consequências do aumento do armamento entre a população brasileira

Dados mostram que nos últimos anos cresceu o número de armas de fogo dentro do território nacional   

Nos últimos três anos, o Brasil dobrou o número de armas nas mãos de civis. De acordo com o Anuário 2021 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, hoje, há uma para cada cem brasileiro. Com leis mais flexíveis e uma cultura de segurança pessoal, muitas pessoas adquirem armas para autodefesa, o que acaba gerando um impacto em diversos campos da sociedade.

O portal de notícias Globo News, junto com o gerente do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani,  fizeram um levantamento de dados do exército brasileiro por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Segundo dados apontados neste levantamento, a cada 24 horas no Brasil, 449 pessoas obtêm licença para possuir uma arma, podendo se encaixar em três categorias: Colecionador, atirador esportivo ou caçador.

Desde julho de 2019, quando esse estudo começou, até março de 2022, o número de pessoas com possibilidade de adquirir uma arma de fogo aumentou cerca de 262%, correspondendo a mais de 600 mil pessoas. Esse número preocupa especialistas, já que de acordo com o Portal da Transparência, o Brasil possui em torno de 350 mil militares na ativa, somando as três forças armadas brasileiras.

João Trajano, membro do Laboratório de Análise da Violência (UERJ), argumenta que o aumento da posse de armas não resolve o problema e pode até agravar outros obstáculos. Para o especialista, as sociedades mais armadas são violentas e conflitos interpessoais têm tendências maiores de resultar em agressões letais. “É um mito que o homem armado está mais seguro porque pode reagir, pois o porte de armas torna esse sujeito mais vulnerável. O que poderia ser um assalto, um roubo ou um bate boca, se torna um homicídio”, afirma.

João Trajano fala sobre o risco que policiais e agentes de segurança pública correm com o aumento da circulação de armas.

Em junho de 2022, uma pesquisa realizada pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), em conjunto com o instituto Sou da Paz e a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SESP) do Espírito Santo, apontou que 30% das armas de fogo, utilizadas para cometer crimes no estado do ES são legalizadas, ou seja, foram adquiridas por pessoas regulamentadas na lei.

Essas armas entram no mercado legalmente, e posteriormente vão parar no mercado ilegal, servindo consequentemente para grupos criminosos. Há indícios de que essa flexibilização possa alimentar este circuito

João Trajano

Outro dilema que uma população armada pode gerar na sociedade, é um possível aumento da desigualdade social na hora de usufruir do direito constitucional de Segurança Pública. Cecília Olliveira, diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, comenta sobre o tema: “Um salário mínimo é um pouco mais do que R$ 1.000,00, e uma arma barata custa o dobro disso, então os pobres continuarão pobres e sem direito à segurança”.

A diretora alerta para o fato de que mais uma vez o governo está terceirizando responsabilidades que deveriam ser asseguradas para todos os cidadãos por constituição.

A publicidade de armas de fogo no Brasil é proibida desde 2003, quando começou a valer o Estatuto do Desarmamento, mas no dia 7 de junho daquele ano, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que vai liberar este tipo de propaganda no país. Segundo João Trajano, o marketing das indústrias de armas é um dos fatores que explica a crescente cultura armamentista no país. “A indústria investe muito na propaganda de que a arma é um artefato simbolicamente revestido de valor, seja da masculinidade, força ou de poder”, destaca.

O Brasil sofre uma grande influência da cultura norte-americana em diversos âmbitos, seja cultural, esportivo, capitalista, entre outros. Existe uma enorme valorização cultural dos Estados Unidos à figura do “cowboy” ou do “tira implacável”, que chega ao Brasil, principalmente, através das produções audiovisuais. Essas figuras acabam associando o uso de armas de fogo à masculinidade ou à virilidade.

João Trajano comenta sobre essa relação entre os países. “Hoje nos Estados Unidos, devido aos sucessivos massacres em série, que obviamente tem ligação com a flexibilidade de acesso à armas, existem muitos movimentos que vão à contramão desses que vimos no Brasil, onde os estadunidenses pedem controles mais rígidos para limitar o acesso ao porte de armas”, reflete. 

O profissional ainda acredita que essa tendência de movimentos contra armamentistas vai acabar prevalecendo diante dos dados empíricos e das sucessivas tragédias que vêm acontecendo com armas de fogo.

Igor Concolato – 1º período
Editado por Lucas Souza – 7º período

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