O impacto da representatividade LGBTQIA+ nos meios de comunicação

Como personagens e formadores de opinião podem influenciar na identificação

IRonnyC destaca que é importante haver representatividade no meio midiático, mas que muita das vezes a comunidade é retratada por apenas um tipo de diversidade. Foto: Franklin Nascimento

A letra da música “Nada vale mais que o amor”, do compositor My Brother, enfatiza que é preciso ter respeito e gentileza, já que o amor é o mais importante. Na canção, o poeta discursa sobre a necessidade em respeitar, fato indispensável não somente no mês do orgulho LGBTQIA +, e sim todos os dias. No entanto, compreender essa palavra  e vivê-la na prática nem sempre é uma tarefa fácil. Hoje, cada vez mais, os meios de comunicação se tornaram ferramentas de luta para inserção da representatividade e do respeito. 

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em uma pesquisa realizada em 2014, consta que o maior meio de acesso à informação da  população brasileira é através da televisão, ocupando 63% dessa parcela. Por esse motivo, temas abordados por ela facilitam o discurso nacional e tornam-se parte do consciente do público. Há menos de 50 anos, o primeiro personagem Gay estreou na dramaturgia brasileira, na novela “O Rebu”, da TV Globo. Atualmente, outros personagens também ocupam o espaço da representatividade na esfera televisiva e ajudam a entender sobre identidades. 

Richard Alcântara, homem trans, de 23 anos, conta que por muito tempo sentia-se perdido e não conseguia se identificar com o seu próprio corpo. Enquanto acompanhava a novela “A Força do Querer”, escrita por Glória Perez, Richard se encontrou por meio de Ivan, personagem que passou por uma transição de gênero durante a trama. “É muito importante saber que existem outras pessoas como você, existe um mundo de possibilidades. Porque antes de eu ser o Richard, eu não tinha um sonho concretizado sobre o que eu queria ser e o que eu era”

Richard conta que a representatividade é muito necessária na mídia, pois assim como ele, outras pessoas podem descobrir que não estão sozinhas. Reprodução: Arquivo pessoal

Após entender sobre quem era, Richard sentiu que deveria ajudar outras pessoas. Atualmente, o paulista divide sua história nas redes sociais e incentiva, por meio da informação, outros a conseguirem perceber quem são. A jornada de Richard é uma inspiração de representatividade para todos que se sentem sozinhos e confusos.  Ele ainda enfatiza que deseja continuar falando sobre esse tema nas redes sociais e também na televisão. 

“Através do homem trans, do personagem Ivan e da mídia, eu descobri que já existia o Richard aqui dentro e eu precisar colocar ele para fora me marcou muito. Foi importante demais para mim reconhecer o cara que eu sempre quis ser”

Richard Alcântara

Ouça o áudio abaixo de Richard sobre representatividade dentro das mídias: 

IRonnyC, artista queer e influenciadora digital de 29 anos, compartilha em seu perfil do Instagram conteúdos de empoderamento LGBTQIA +. A cantora esclarece que a mídia contribui diretamente no processo de se descobrir, mas não influencia na construção de uma identidade. “Você saber que existem outras pessoas que assim como você sofrem ou sofreram, não é construir uma identidade, até porque você já nasce com ela.” 

A influenciadora ainda explica que grande parte dos internautas apresentam dificuldades em seguir personalidades que se assemelham a elas, mas que na comunidade LGBTQIA + isso não ocorre frequentemente. Segundo ela, existem muitas blogueiras e influencers LGBTQIA + famosas dentro do nicho específico, contudo, elas não são inseridas tão facilmente na busca de perfis da maior parte da população. 

O estudante de Zootecnia da UFRRJ, Yan Aquino, de 18 anos, diz que por muito tempo se sentiu diferente dos demais, apesar disso, ao acompanhar os trabalhos do ator Paulo Gustavo, ele conseguiu se identificar com o humor e a forma de se expressar do comediante. “Era como se eu fosse diferente, mas um diferente ruim. Depois de conhecer os personagens do Paulo, foi como um tapa de aceitação, porque eu parei de achar que aquilo que eu sentia e a forma como eu agia era algo de errado”

Yan afirma que é de extrema importância os meios televisivos ampliarem o alcance da comunidade LGBTQIA +, para desmistificar o preconceito e mostrar que a diversidade existe. Reprodução: Arquivo pessoal

O estudante acrescenta que a presença de narrativas e personagens que visibilizam à comunidade transformaram a maneira que ele se enxergava e impulsionaram o empoderamento em si, além de apresentar exemplos reais e fictícios de uma comunidade tão vasta e diversificada. Yan também destaca que as mídias televisivas auxiliam nas representatividades, uma vez que exibem a todas as crianças e adolescentes sobre as diferenças. “A diversidade existe e mostra que se eles não se encaixam no que foi esperado pelos pais, podem se encaixar em algo abordado nos meios de comunicação.” 

Assim como Yan, Ariane Viana, de 21 anos, estudante de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida, também entendeu sobre sua sexualidade através de uma pessoa pública. Ariane conta que sempre acompanhou o trabalho da atriz Kristen Stweart, e quando ela assumiu ser lésbica, foi um ato de liberdade para as duas. A estudante ainda explica que cresceu em um lar evangélico e por esse motivo sempre entendeu que existia apenas uma maneira de amar, no entanto, a partir dos 13 anos, decidiu buscar novas interpretações sobre o que sentia. 

“A Kristen Stweart foi muito importante nessa jornada da minha vida, porque um tempo depois a atriz se assumiu LGBT. Então eu olhei para mim e falei: se ela tem coragem de se assumir, por que eu não posso dizer para mim mesma que eu sou LGBT?” 

Ariane Viana

De acordo com a estudante de Jornalismo, é indispensável o protagonismo de personagens LGBTQIA + nas produções cinematográficas e no meio digital, pois a partir disso, a representatividade é estimulada. Ariane também evidencia a necessidade em ter atores da comunidade que interpretam papéis de acordo com sua sexualidade ou identidade de gênero. “É muito importante quando se tem ator LGBT que faz um personagem LGBT, porque a gente não se enxerga apenas no personagem na TV, mas também no ator. Ajuda muito na hora de contar para a família ou amigos e você usa aquele personagem para explicar como você é”, contou Ariane Viana.

Ariane afirma que a presença de representatividade nas sérias que ela tanto gostava contribuíram para entender o que estava acontecendo consigo e com os seus sentimentos.  Reprodução: Arquivo pessoal

Outro caminho que se cruza com a representatividade dentro das mídias é o de Brian Correia. O jovem sempre se identificou como diferente das demais crianças, e revela que mantinha dificuldades em entender sobre sua sexualidade por conviver com parentes de ideais tradicionais, mesmo estando em um núcleo familiar amoroso. Após se afastar desse ambiente, ele entendeu e se enxergou como um homem que se atrai por outros homens. “Naquela época eu não queria chamar isso de gay, porque era uma palavra que trazia um estigma muito negativo para mim, mas já me enxergava enquanto uma criança diferente” 

Brian aponta que durante a pré adolescência a representatividade que encontrava na televisão brasileira era muito caricata e normalmente a comunidade LGBTQIA + não ocupava espaços de poder dentro desses personagens. Quando conheceu “Glee”, série musical norte-americana, percebeu que a narrativa compartilhava os problemas diários de um grupo de adolescentes. Segundo ele, os personagens LGBTQIA + passavam por situações reais e o foco não era voltado somente para a sexualidade deles, mas que também viviam no fim do dia dramas e sucessos  cotidianos como qualquer jovem. 

Brian ressalta que sempre foi muito introspectivo, mas a arte nas novelas, séries e filmes frequentemente eram suas válvulas de escape. Reprodução: Arquivo pessoal 

O professor e pesquisador de comunicação, Thiago Soares, de 43 anos, salienta que os meios de comunicação são um dos principais aparatos na construção de pautas sociais. Ele ainda esclarece que a televisão é a grande mediadora de informações de cunho inclusivas, já que o sistema tem um papel fundamental na dinâmica de construir narrativas e pensamentos. Logo, quando a comunidade LGBTQIA + é retratada dentro dela, a chance de impactar novos telespectadores é muito maior. 

O professor explica que os filmes, séries e novelas, por meio da ficção, podem propor temas pouco discutidos e ampliar a dimensão do conhecimento de questões LGBTQIA + da sociedade. Reprodução: Arquivo Pessoal

Ouça o áudio de Thiago, professor e comunicador sobre a relação da mídia e a representatividade: 

As mídias por si só não conseguem contribuir para a diminuição dos índices de violência contra a população LGBTQIA +, no entanto, elas permitem que a representatividade e a pluralidade auxiliem no desenvolvimento da conscientização sobre outras identidades de gênero e sexualidade. Somente com a presença de símbolos que retratam a comunidade gay nos meios de comunicação e com o respeito é possível alcançar a realidade da canção de My Brother, que fomenta sobre a importância do respeito e da gentileza para formar uma sociedade diversa, com amor e sem preconceito. 

Virgínia Carvalho – 3º período

Ana Beatriz Rangel- 3º período

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