Filhos de porteiros vencem preconceitos e estereótipos

Histórias que transformam a discriminação em incentivo

Durante uma reunião do Conselho da Saúde Suplementar (Consu), na terça-feira (27), o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o Fies foi um desastre que enriqueceu meia dúzia de empresários. Sem saber que estava sendo filmado, Guedes zombou sobre o ingresso do filho do porteiro de seu prédio, que segundo ele, o menino teria se favorecido mesmo depois de ter zerado todas as provas, embora o programa exija uma nota mínima para o financiamento ser aprovado. “Deram bolsa para quem não tinha a menor capacidade. Não sabia ler, escrever. Botaram todo mundo! Exageraram”, completou o ministro. 

O caminho percorrido até a inserção na universidade nem sempre é fácil para estudantes de origem humilde, uma vez que o acesso à educação não é igualitário para todos. No entanto, existem pessoas que desmistificam a fala do ministro, como Eduardo Tavares, filho de porteiro, formado em geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em Engenharia Cartográfica pelo IME. A jornada do Eduardo sempre foi cheia de desafios, desde muito novo estudou em escola pública e teve que correr atrás dos sonhos por conta própria.  

Eduardo incentiva que outros filhos de porteiros e jovens de origem simples busquem oportunidades, nunca percam o foco e lutem por seus sonhos. Reprodução: Arquivo pessoal 

“No segundo ano do Ensino Médio eu consegui um estágio, e isso proporcionou pagar um pré-vestibular. Entrava às 7h da manhã, saía às 17h e ia para o pré-vestibular. Foi o ano todo assim, chegando em casa depois das 23h”, diz o geógrafo. Além de lidar com esses desafios, o preconceito era constante. Eduardo conta que já chegou a lidar com episódios bem marcantes no prédio em que o pai trabalha, mas sempre enfrentou tudo de cabeça erguida. 

“Tinham alguns moradores que se sentiam indignados por um filho de porteiro ingressar na universidade pública e seus filhos não conseguirem. Eu só podia subir no elevador de serviço”

Eduardo Tavares

 Ouça o áudio abaixo com o conselho de Eduardo Tavares para outros jovens de família humilde: 

Rodrigo Barbosa, de 23 anos, ainda não concluiu a graduação, mas encontra as mesmas dificuldades que Eduardo. Hoje, no sexto período de arquitetura e urbanismo na Universidade Veiga de Almeida (UVA), o estudante frisa que o maior desafio foi de fato ingressar no ensino superior. O percurso acadêmico se passou em colégios públicos, com salas cheias, estrutura decadente e poucos recursos. 

“No meu Ensino Médio, as turmas eram compostas por quase 40 pessoas em uma sala só. Então só aí já tem uma dificuldade para a professora conseguir dar atenção a todos” 

Rodrigo Barbosa 

O aluno, que ingressou na universidade através de uma bolsa de estudos, conta que passa algumas noites estudando para manter o coeficiente de rendimento (CR) alto e conseguir se destacar. “Posso dizer enquanto filho de porteiro que a profissão do meu pai não me limita” 

De acordo com Rodrigo, se graduar já é um símbolo de resistência contra discursos como o de Paulo Guedes. Reprodução: Arquivo Pessoal 

A educação é fundamental para a construção de uma sociedade justa e igualitária. Eduardo Tavares, hoje, como diretor de uma escola estadual no Rio de Janeiro, tem feito sua parte para que outras pessoas possam mudar suas histórias. Segundo ele “ A educação é libertadora. Apenas ela pode nos libertar do negacionismo, obscurantismo que a ignorância assola grande parte da sociedade.” 

Ao descobrir que estava sendo gravado, o ministro disse: “Só não manda para o ar, por favor”. Mesmo tentando amenizar a fala, ele afirma que o discurso se tratava de apenas algumas universidades e é “prova viva” de que uma pessoa de classe média baixa com um mínimo investimento pode alcançar sucesso na vida profissional.  

A declaração de Paulo Guedes não é um fato, dado que histórias como a de Rodrigo e Eduardo são apenas uma parte das muitas que conseguem comprovar que ser filho de porteiro ou de família humilde não são empecilhos para conquistar uma graduação. E essas pessoas transformaram, ainda que um pouco, a sociedade através da educação.  

Virgínia Carvalho- 3º período
Ana Beatriz Rangel- 3º período

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