Amor que vai além do tradicional

Mães não convencionais garantem cada vez mais espaço no meio adotivo

Alexya Salvador, ao lado de Roberto, seu marido, adotou o primeiro filho em 2015. Reprodução: Arquivo pessoal

Ao longo da história, acreditava-se que o conceito de família estava restrito apenas ao vínculo sanguíneo. No entanto, esse entendimento perdeu a importância quando novas concepções familiares começaram a surgir. Essa mudança social também é refletida na procura do processo de adoção, que teve um crescimento com o propósito de legitimar essas novas construções e permitir que crianças adotadas também recebessem um lar seguro e com muito amor. 

Mesmo diante dessa vontade, o contexto atual ainda é um pouco conturbado para pessoas fora do padrão cisheteronormativo, uma vez que o Brasil lidera o ranking mundial de ataques contra LGBTQIA +, de acordo com a ONG Transgender Europe. Alexya Salvador, de 40 anos, é a primeira mulher trans a finalizar um processo de adoção no país. Ao lado do marido, a pedagoga decidiu ir contra esses índices e optou pelo amor ao adotar duas crianças, Gabriel, de 16 anos e Ana Maria, 15 anos. A família ainda não está completa, eles seguem no processo para adotar Dayse, de 9 anos, e concluir o sonho de Alexya em ser mãe de três.

“A minha vida foi transformada, ganhou mais sentido, porque aquilo que eu sonhava e rezava se tornou realidade. No meu caso, sendo uma mulher trans, hoje poder garantir para os meus filhos um lar seguro, uma vida emocional mais segura, sinalizou que algo que parecia ser impossível, é possível”

Alexya Salvador

Cecília Coimbra, advogada especialista em adoção há mais de 18 anos, acompanhou de perto o desejo de Alexya em ser mãe. Segundo Cecília, o início foi um desafio para ambas, já que não havia nenhum registro de outra mulher transexual que já tinha concluído um processo de adoção no Brasil. A advogada Pós-Graduada em Direito da Família não tinha ideia do que o poder judiciário entenderia da maternidade de Alexya e quais preconceitos seriam encontrados. Apesar disso, Cecília diz que em nenhum momento a transexualidade da adotante foi questionada e o que se deu ênfase foi a preocupação em oferecer um lar saudável e com amor para as crianças.  

Cecília explica que para o procedimento adotivo ser concluído com êxito, alguns requisitos são indispensáveis, como boas condições emocionais e financeiras. Reprodução: Arquivo pessoal  

“Eu tenho muita alegria em já ter formado pela adoção muitas famílias não tradicionais e continuaremos lutando para que essas famílias tenham voz, sejam ouvidas pelo poder judiciário e que nunca nenhum tipo de preconceito recaia sobre essas”

Cecília Coimbra

Ouça abaixo o recado de Alexya Salvador para outras mulheres trans que também têm o desejo de serem mães.

Outro lar com crianças adotadas é do casal Naiara Demarco, de 31 anos, e Janaína Fernandes, de 37 anos, mamães de dois meninos, Guilherme Davi e Gabriel Martins, adotados em 2017. O processo de adoção iniciou-se antes de Naiara e Janaína se casarem, ao lado da sua companheira anterior, Janaína seguiu com o desejo em ser mãe e iniciou  com o procedimento burocrático. A fotojornalista, Naiara, entrou na história depois dos meninos serem adotados, quando a ex-cônjuge decidiu romper o relacionamento e as duas se reencontraram.

Naiara e Janaína sempre sonharam em ser mães, só não sabiam em qual tempo. No fim, acreditam que aconteceu no momento ideal. Reprodução: Arquivo pessoal

“O mês foi passando e eu comecei a perceber que os nossos laços estavam ficando cada vez mais fortes. Eu não estava mais querendo me enxergar enquanto tia das crianças, mas como mãe delas”, contou Naiara. Ela ainda enfatiza que conversou com Janaína a respeito de tomar a maternidade juntas, independente de não ter passado pelo processo de adaptação dos meninos, isso não inviabiliza o desejo em ser mãe e amar incondicionalmente as duas crianças.

“Quando saiu a guarda foi um momento de alívio de poder falar: você está sob o meu cuidado, você está em casa”

Janaína Fernandes

Crianças que estão em casas acolhedoras presenciaram contextos sociais extremamente complicados, e para alguns, a adoção é o primeiro contato com o amor, portanto, dificilmente a orientação sexual e a identidade de gênero são requisitos importantes. Elas apenas necessitam de alguém que deseje amá-las. A adoção diz respeito de algo novo que está para acontecer, um recomeço, um sinal de esperança para aqueles que não tiveram uma boa primeira chance. No presente, crianças são amadas apesar do padrão imposto pela sociedade.

Além disso, decidir ser mãe ultrapassa um compartilhamento sanguíneo, é um ato de amor e de responsabilidade. A adoção não é um processo simples, mas insistir no amor materno é um sinal de coragem. Nesse segundo domingo de maio comemora-se oficialmente o dia das mães, essas que optaram pelo amor incondicional independente de qualquer circunstância. Será um dia de festejar a vida de todas as mães, como a Alexya, Naiara, Janaína ou muitas outras que compõem os lares brasileiros. 

Ana Beatriz Rangel – 3º período e Virgínia Carvalho – 3º período 

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