Produção científica é afetada pela pandemia

Pesquisadores tiveram que modificar a rotina a fim de manter os projetos em curso

O cenário atual modificou o cotidiano de muitos brasileiros. A necessidade de ficar em casa fez como que a rotina de trabalho fosse afetada, e com os pesquisadores não foi diferente. Segundo o portal ResearchGate, 82% dos pesquisadores entrevistados foram afetados pela pandemia de Covid-19.

Greta Fernandes Moreira, 32 anos, é doutoranda pela Universidade Veiga de Almeida e pesquisa a relação entre psicanálise e arte. Apesar de trabalhar majoritariamente com a teoria, ela foi impactada pela quarentena. “Nos primeiros 30 dias da quarentena, o meu trabalho ficou completamente parado. Eu não conseguia, nem tinha a menor vontade de fazer ou produzir nada relacionado à minha tese. Me permiti ter esse tempo para vivenciar e tentar elaborar esse momento tão estranho que estamos experienciando”.

Cassio Jones, 26 anos, também foi afetado, mas de outra forma. Ao contrário de Greta, ele desenvolve um trabalho de campo na pesquisa intitulada “Performance de polinização de beija-flores” desde o início de 2019 num programa de mestrado da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Por conta das medidas de contenção da Covid-19, o projeto de Cassio foi paralisado.

“Ele (o projeto) será retomado, mas dificilmente este ano pois, mesmo que a quarentena acabasse hoje e já fosse possível realizar as viagens, eu não teria o que coletar visto que a planta que eu trabalho floresce apenas no verão, então teria que aguardar outro período de floração para dar continuidade a pesquisa”

– Cassio Jones

Os projetos de pesquisa da Universidade Veiga de Almeida também foram impactados pelo cenário atual. Segundo Cristiano Bertolossi, Diretor do Núcleo de Pesquisa da Universidade Veiga de Almeida, o número de trabalhos inscritos foi 15% menor em relação ao ano de 2019. Ainda não há previsão de volta, mas Bertolossi afirma que as atividades não foram paralisadas.

“O PIC UVA vai funcionar, mas vai funcionar em formato digital. Ao invés de abrir uma sala física, a gente vai abrir uma sala no Canvas, no Teams, que são ferramentas que nós já utilizamos. Essas ferramentas estão à disposição também dos pesquisadores para que eles possam usufruir para coleta de dados das suas pesquisas também”

– Cristiano Bertolossi

O uso de ferramentas que possibilitam o avanço da pesquisa é fundamental nesse momento no qual ficar em casa é uma questão de saúde pública. Segundo a plataforma ResearchGate, 63% dos entrevistados tiveram que abandonar o trabalho em campo e se dedicar ao estudo em casa. Pedro Henrique Domingues é um desses pesquisadores que teve que se adequar a essa rotina.

Domingues, 26 anos, é doutorando em Inteligência Computacional pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Ele defendeu a tese de mestrado e deu início ao doutorado já num contexto de pandemia. “Nessa parte final do mestrado eu não fui afetado tanto. No doutorado, que eu iniciei num contexto de quarentena, eu já fui para o sistema de EAD. Tem uma diferença muito grande pela minha necessidade de conversar com outros alunos”, diz Domingues.

O tempo passa a ser utilizado de novas formas. 45% dos entrevistados do ResearchGate disseram que estão pesquisando e lendo literatura científica durante esse período. Engana-se, porém, quem acredita que isso torna o trabalho mais fácil: incertezas com o futuro profissional, parentes e amigos infectados, isolamento, são algumas das queixas apontadas.

Greta tem que lidar com a ansiedade e angústia de não saber o que esperar no pós-pandemia. Domingues teve que enfrentar a perda de uma pessoa próxima e vislumbra um futuro fora do país por entender que não será valorizado aqui. Jones se preocupa financeiramente por não saber qual o futuro da bolsa de estudos que recebe e tem que lidar com a mudança de planos e o atraso de sonhos.

A pandemia expôs alguns problemas sociais e a falta de valorização na produção científica. Mesmo com todos os obstáculos mestrandos e doutorandos continuaram em suas pesquisas. Projetos não cessaram e, apesar de tudo, ainda existe a vontade de manter os estudos e curso.

“O Brasil, hoje, não é um país muito favorável àqueles que estudam e lidam com a ciência. Então, a minha busca pelo caminho da ciência não é para me manter nesse país, e, sim, para ir para um país que valorize a pessoa que eu busco me tornar”

– Pedro Henrique Domingues.

Rafaela Barbosa – 7° Período | Jornalismo

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