Alguns filmes chegam cercados de expectativa, seja pelo nome por trás das câmeras, seja por quem assume o protagonismo. “Marty Supreme” pertence a esse lugar raro onde tudo parece convergir para um acontecimento, e, ainda assim, não é apenas sobre uma estrela, mas sobre o conjunto que a sustenta.
Dirigido por Josh Safdie, o longa encontra em Timothée Chalamet o seu centro gravitacional. Como Marty, um prodígio do tênis de mesa que atravessa cidades como Nova York e Tóquio, ele encarna a obsessão, a ambição e o risco de quem decide colocar tudo em jogo, até mesmo sua família. Mas, ao redor dele, existe um ecossistema de personagens que amplia, e tensiona, essa trajetória. É nesse entorno que o filme ganha corpo e densidade.
Odessa A’zion surge como Rachel, a vizinha que não apenas acompanha Marty, mas o compreende em um nível que poucos alcançam. Há, na relação dos dois, uma espécie de equilíbrio instável, enquanto ele se move entre excessos e fugas, ela permanece como alguém que enxerga além das aparências. Não é uma presença passiva, é estratégica, emocionalmente inteligente e, acima de tudo, resistente à idealização.
Já Gwyneth Paltrow retorna ao cinema em um papel que carrega camadas de melancolia e desejo. Sua personagem, Kay, uma ex-estrela de Hollywood que trocou o brilho pela estabilidade, encontra em Marty uma ruptura tardia. O envolvimento entre os dois não se sustenta em romantização, é consciente, ambíguo e, por vezes, doloroso. Há ali menos sobre recomeços e mais sobre aquilo que nunca deixou de existir dentro dela.
Em outra ponta, Fran Drescher interpreta Rebecca, a mãe de Marty. A relação entre eles é marcada por atrito, frustração e afetos mal resolvidos. Ela representa o peso do passado, das expectativas e dos limites que o protagonista insiste em romper. Não é apenas um conflito geracional, é emocional, direto e, muitas vezes, inevitável. E então surgem as presenças que deslocam o filme para territórios menos previsíveis.
Tyler, The Creator, creditado como Tyler Okonma, faz sua estreia no cinema como Wally, o taxista e melhor amigo de Marty. Sua presença, esplêndida, adiciona uma energia crua, quase caótica, ao percurso do protagonista pelo submundo nova-iorquino. É um contraponto que mistura lealdade e perigo, humor e tensão, funcionando como um espelho distorcido das escolhas de Marty.
Já Abel Ferrara aparece no elenco como um elemento de ruptura, uma escolha que reforça o caráter imprevisível do filme e a assinatura inquieta de Safdie, conhecida por explorar personagens à beira do colapso.
Mais do que um veículo para o talento de Chalamet, “Marty Supreme” se constrói como um mosaico de relações. Cada personagem revela uma faceta diferente do protagonista, o homem que ama, o filho que confronta, o jogador que arrisca e o jovem que ainda não sabe até onde pode ir.
Talvez seja por isso que o filme já desponta como um dos mais comentados da temporada. Indicado a prêmios importantes, como o Critics Choice Awards e o Globo de Ouro, ele chega aos cinemas carregando não apenas expectativa, mas também a promessa de um cinema pulsante, movido por personagens intensos e relações complexas.
No fim, Marty pode ser o centro da história. Mas são os outros personagens que revelam, camada por camada, de quem ele realmente é.
Duda Nicolich – 3º Período






Deixe um comentário