No universo vibrante do carnaval carioca, a sustentabilidade tem se tornado uma pauta cada vez mais presente ano após ano. Entre o brilho das alegorias e o som de batuques, os barracões escondem nos bastidores histórias de criatividade e consciência ambiental. Na Intendente de Magalhães, onde desfilam as escolas das Séries bronze e prata, o compromisso com o reaproveitamento de materiais se destaca, mostrando que é possível fazer um grande espetáculo sem abrir mão da responsabilidade com o meio ambiente. 

Segundo um levantamento da Comlurb realizado em 2024, o carnaval do Rio de Janeiro gera, em média, mais de 1.100 toneladas de resíduos por ano durante o período dos desfiles na cidade. Parte desse volume vem da produção de fantasias e alegorias o que torna a reciclagem e o reaproveitamento uma necessidade para reduzir impactos ambientais.

Figura conhecida, muito presente no meio do carnaval e apaixonado por essa festa popular, Francisco da Silva carinhosamente conhecido pelo apelido “Chicão”, trabalha a mais de 15 anos como responsável pelos barracões, que abrigam cerca de 30 escolas na Intendente, explica que praticamente tudo pode ser transformado em arte. “Onde muita gente vê lixo, como a pilha de matérias que temos nos fundos do barracão, aqui vemos a possibilidade de transformar em fantasia, adereço, alegoria… A gente usa de tudo: latas, garrafas PET, CDs, canos de PVC, tudo ganha uma vida nova”, afirma. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o reaproveitamento de materiais como plástico e metal pode reduzir em até 70% o consumo de energia em relação à produção com matéria-prima virgem. A prática da reciclagem não só reduz gastos que é um dos grandes desafios dessas escolas, mas também estimula a criatividade dos artesãos e carnavalescos, que veem nesses materiais uma oportunidade de inovação.

No Grupo Especial, a realidade é um pouco diferente. Amanda Palhares, uma das dirigentes da Unidos de Niterói, revela que as regras da Liesa impõem limitações que dificultam a  reutilização de adereços e alegorias, por exemplo, o que de certa forma diminuiria a produção de novos resíduos. “O regulamento não permite o uso dos mesmos elementos por mais de um ano consecutivo, então precisamos buscar outras formas de ser sustentáveis”, explica. Essa política existe para manter a inovação dos desfiles, mas também acaba representando um desafio para a sustentabilidade. Amanda também ressalta que o trabalho de reciclagem é mais comum na série ouro, grupo que a escola pertencia até esse ano, antes de ganhar lugar no grupo especial. Entre as alternativas, a escola tenta reaproveitar pedrarias e também tecidos que sobram e  podem ser usados em um próximo ano sem ferir as regras da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA) a também a doação de peças para agremiações menores de fora do grupo especial.

Na Portela, os trabalhadores que fazem parte da produção ressaltam que diversos materiais usados, como o isopor muito presente em diferentes processos é dificilmente reciclado, isso porque eles são moldados para objetos específicos dos desfiles, então acaba sendo, assim como na Unidos de Niterói repassado para outras associações. O diretor de carnaval Higor Machado reforça que o desafio é grande, mas destaca a importância da inovação. “Mesmo com as restrições, tentamos encontrar soluções que diminuam o desperdício e valorizem o trabalho artesanal”, diz. 

O “Sustenta Carnaval”, projeto pioneiro no Rio de Janeiro, tem a meta de recolher e reutilizar pelo menos 30% do volume de fantasias descartadas pelas escolas do Grupo Especial e da Série Ouro, o que corresponde a cerca de 60 toneladas. Criado em 2023, o programa evita que materiais sintéticos, de difícil decomposição, sejam despejados em aterros sanitários, direcionando-os para artesãos e oficinas de reciclagem têxtil.

Para a educadora ambiental Renata Costa, formada pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em Ciências Físicas e Biológicas e pós-graduada em Gestão e Planejamento Ambiental pela Universidade Estácio de Sá, o trabalho de sustentabilidade dentro dos barracões vai além da prática ecológica é também um processo de transformação e consciência.“Falar sobre educação ambiental nos barracões das escolas de samba é falar sobre consciência, arte e transformação. Quando costureiras, aderecistas e carnavalescos entendem o impacto de cada material, nasce uma nova forma de criar a beleza consciente. O barracão deixa de ser apenas um espaço de produção e se torna um espaço de aprendizado coletivo”, explica.

Renata também destaca que o reaproveitamento tem impactos diretos e positivos no meio ambiente e na sociedade.“Cada pedaço de tecido, garrafa ou madeira que ganha nova utilidade representa um pequeno gesto de cura para a Terra. Reutilizar reduz a extração de recursos, economiza energia e diminui o lixo. Mas vai além disso  é também humano, social e criativo. Mostra que sustentabilidade é uma prática possível, que começa nas mãos de cada um”, conclui.

Apesar das diferenças entre os grupos, esse tema une as agremiações em um mesmo propósito: repensar o carnaval de forma mais consciente e duradoura. Entre o luxo e a simplicidade, o samba se reinventa e prova que é possível manter o glamour da festividade, mesmo com menos desperdício.

Eduarda Gomes – 1º Período

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