A Expo Favela Rio desembarcou pela primeira vez na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, e trouxe com ela o poder transformador da cultura periférica. O evento, que nasceu com o propósito de dar voz e visibilidade a empreendedores, artistas e produtores culturais das favelas, expandiu seu alcance ao ocupar um dos espaços mais simbólicos da zona oeste do Rio, território marcado pela presença de públicos e realidades distintas.

Mais do que uma feira de negócios, a Expo Favela Rio se consolidou como um espaço de troca, reconhecimento e pertencimento, aproximando a arte das favelas do grande público e mostrando que a potência criativa da periferia ultrapassa qualquer fronteira geográfica.

Para Walter, escritor, poeta e artista visual, participar do evento na Barra é uma forma de “furar a bolha” e levar a estética e a força da arte periférica para novos horizontes. “Trazer um pouco da minha arte para a Barra da Tijuca é como furar a bolha. É trazer essa cultura periférica, a cultura do hip hop, para um lugar onde muitas vezes as pessoas não têm acesso a isso. Ter esse espaço é um viés muito bom. A arte confronta, mas também acolhe, e esse evento abre caminhos para quem quer se expressar. Aqui, a gente mostra que a favela não é só carência, é potência. É criatividade, é talento, é resistência. Estar na Barra e ser recebido de forma tão aberta mostra que a arte tem o poder de atravessar territórios. ”, destacou o artista, que participou pela primeira vez da feira.

O artista destacou ainda o papel transformador da arte. “A arte, primeiro, te confronta, depois te acolhe. Ela te faz refletir e também te cura. Por isso é importante termos espaços como esse, onde podemos nos expressar e mostrar o que a periferia tem de melhor”, afirmou.

O sentimento de oportunidade também foi compartilhado por Greg Rio, nome artístico de Paulo Negre, empreendedor que transforma lacres de alumínio em bolsas e acessórios sustentáveis. Para ele, estar na Barra é uma chance de divulgar seu trabalho e, ao mesmo tempo, conscientizar sobre o cuidado com o meio ambiente. “Meu trabalho é mais para incentivar a reciclagem e ajudar o meio ambiente. Um lacrezinho que o povo joga na praia pode prejudicar o futuro. Aqui eu mostro como a reciclagem pode ser fonte de sobrevivência e consciência. É um passo para um mundo melhor”, contou o artista.

Ele completou com um recado inspirador para quem quer expor e começar a fabricar produtos recicláveis. “Reciclar é a melhor coisa que tem. É cuidar do mundo e de nós mesmos. É um pouquinho de cada um fazendo a diferença.”

A valorização da estética negra e natural também teve espaço na exposição. Deise Rangel, especialista em cabelos crespos e cacheados e fundadora de um salão naturalista em Santa Cruz, celebrou a oportunidade de apresentar seu trabalho em um ambiente novo e diverso. “Estar na Barra da Tijuca é uma realização de um sonho. Durante anos eu fui espectadora da Expo Favela, e hoje estar aqui expondo é emocionante. Representa levar o nosso segmento, que valoriza a beleza natural da mulher preta, para um público que muitas vezes não tem acesso a esse tipo de serviço”, contou emocionada.

Em meio à paisagem moderna da Barra da Tijuca, um espaço de empreendedorismo e cultura tem quebrado barreiras e levado representatividade para além dos territórios periféricos. Paulo Roberto, empreendedor e dono da Nego Artes, é um dos expositores que transformaram o ambiente do evento Expo Favela Innovation em um verdadeiro ponto de valorização da cultura afro-brasileira. “A Nego Artes é uma loja familiar. Trabalhamos eu, minha esposa e nossas filhas, e o nosso intuito é propagar a cultura afro no Brasil”, conta Paulo. A loja, voltada também ao cunho religioso, oferece joias, roupas e acessórios que exaltam a ancestralidade e a estética negra. Mais do que um negócio, o empreendedor vê a marca como um ato de resistência. “É uma cultura que ainda é muito discriminada, e nossos irmãos não têm representatividade. Então tudo que a gente pode propagar, exaltar, apoiar e incentivar, a gente faz”, contou.

O projeto Tamo Junto Rocinha leva sustentabilidade e inovação social da comunidade para outros territórios. A professora Leona Pimenta apresentou no Expo Favela Innovation, na Barra da Tijuca, ações que unem tecnologia e reciclagem, como o reaproveitamento do plástico ABS em parceria com a PUC-Rio e a capacitação de mulheres empreendedoras.Quando a gente traz a comunidade para o asfalto, mostramos as potencialidades da favela e quebramos o estigma de que lá só existe carência. Existe talento, potência e futuro”, afirma Leona.

Mais do que uma feira de negócios, a Expo Favela Rio se consolidou como um movimento de inclusão e valorização. Ao ocupar um espaço como a Cidade das Artes, o evento reforça que a cultura periférica não tem endereço fixo, ela pertence à cidade inteira.

A mudança de território simboliza também a quebra de barreiras sociais e culturais, ampliando o diálogo entre diferentes realidades e promovendo uma ponte entre o morro e o asfalto.

Duda Nicolich – 2º Período

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