A crescente cobrança por produtividade tem se intensificado nos últimos anos, passando a afetar de maneira ampla diferentes setores da sociedade, incluindo escolas, universidades e ambientes profissionais. Essa pressão por resultados imediatos e pela execução simultânea de múltiplas tarefas tem provocado impactos significativos na rotina de indivíduos, influenciando desde o desempenho acadêmico até a saúde mental no âmbito profissional.
Essa cobrança constante por eficiência e resultados imediatos não afeta apenas o desempenho, mas também a percepção que os indivíduos têm de si mesmos. Quando metas e padrões de produtividade são inalcançáveis ou excessivamente rígidos, as pessoas tendem a se sentir insuficientes, frustradas ou culpadas por não atenderem às expectativas estabelecidas. Fabiana Neves, Psicóloga Clínica, alerta para os impactos dessa cultura sobre a autoestima das pessoas. “A cultura da produtividade afeta a autoestima quando os indivíduos não conseguem alcançar as metas estabelecidas por essa lógica. Vivemos em uma sociedade capitalista que define que tempo é dinheiro, valorizando a produtividade acima da qualidade do trabalho. Essa cultura é extremamente perversa, pois exige desempenho desumano e culpa o indivíduo pelo próprio rendimento. O sujeito que não se adaptar à essa lógica neoliberal sofre porque acredita que basta ele se esforçar para dar conta das demandas”, explica Fabiana.
Embora a intenção seja aumentar a eficiência, a prática contínua de alta produtividade pode resultar em efeitos adversos à saúde mental, incluindo ansiedade, estresse e síndrome de burnout, além de comprometer a qualidade do aprendizado e do desempenho no trabalho. Um Levantamento realizado pelo Ministério da Previdência Social e divulgado pela Fundacentro no gov.br , mostrou que cerca de 500 mil brasileiros se afastaram do emprego, em 2024, devido a problemas de saúde mental, com a ansiedade e a depressão sendo os principais motivos, alcançando o maior número registrado nos últimos dez anos.
Sobre isso, Fabiana Neves aponta que a pressão excessiva por produtividade leva principalmente à depressão e ao burnout. Ela ressalta que, frequentemente, a depressão é tratada apenas com medicamentos, o que mantém a pessoa produtiva, mas ignora os fatores sociais e econômicos que também afetam sua saúde mental. “As condições mais comuns decorrentes da alta cobrança são a depressão e a síndrome de burnout. A depressão, apesar de ser multifatorial, muitas vezes é tratada apenas com medicação, o que mantém a produtividade, mas desconsidera questões sociais e econômicas que afetam o sujeito”, disse.
No contexto escolar, a cobrança por produtividade começa já na infância e adolescência, com crianças e adolescentes constantemente avaliados pelo desempenho acadêmico, cumprimento de metas e prazos. Dois em cada três alunos do 5º e 9º ano do Fundamental e da 3ª série do Médio da rede estadual de SP relataram sintomas de depressão e ansiedade, além de 18,8% dos alunos afirmaram se sentirem totalmente esgotados e sob pressão, segundo avaliação do SARESP com 642 mil estudantes e mapeamento realizado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e o Instituto Ayrton Senna. Essa pressão, que pode vir de professores, da instituição, dos colegas ou do próprio estudante, associa eficiência e entrega de tarefas ao valor pessoal, influenciando comportamentos que se estendem à vida universitária e profissional.
Eliane Cordeiro, psicopedagoga e coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental, declarou que essa exigência intensa pode afetar o bem-estar e a saúde mental, tornando necessário que o planejamento pedagógico inclua momentos de criatividade e descanso. “Acredito que o planejamento precisa ter momentos em que os alunos possam colocar a criatividade em prática com artes, música, brincadeiras corporais. E, além disso, é fundamental reservar pausas, tempos de descanso ou de não ter uma atividade tão direcionada. Isso é muito importante”, afirma Eliane
A psicopedagoga, também enfatizou que preparar os jovens para um mundo que valoriza produtividade exige ensiná-los a organizar o tempo de forma equilibrada, distribuindo espaço entre estudo, lazer e atividades prazerosas: “ Conscientizar os jovens de que a produtividade de qualidade depende de organização e planejamento do tempo, equilibrando trabalho, estudo, descanso, lazer e atividade física, é essencial para preservar a saúde mental, mesmo que essa prática seja desafiadora na vida adulta.”
A cobrança por produtividade não se limita ao ambiente escolar, ela se intensifica à medida que os jovens entram no mercado de trabalho. Em empresas e instituições, profissionais enfrentam metas e prazos rigorosos, muitas vezes com jornadas extensas e múltiplas responsabilidades simultâneas. Para Cristiano Sousa, estudante de relações humanas do quarto período e trabalhador no setor administrativo do Planetário. “Há uma grande necessidade de se dividir o tempo entre o trabalho e os estudos. Estudar é importante para todo jovem que sonha em crescer na vida e realizar algumas conquistas, assim como o meu, que é ter uma casa própria em meu nome.”
No mercado de trabalho, a pressão por resultados imediatos e o acúmulo de responsabilidades podem levar muitos jovens a abrir mão dos estudos ou precisar focar mais no trabalho, para garantir a estabilidade financeira. “Em toda empresa existem metas/resultados a atingir e esse foi um grande fator para que fosse deixado de lado o estudo para segurar o emprego e não perdê-lo, focando nele a maior atenção e disponibilidade de tempo”, contou Cristiano.
Diante desse cenário, a busca incessante por produtividade, embora muitas vezes associada ao sucesso, precisa ser repensada. A pressão constante por resultados, presente desde a juventude até a vida adulta, mostra que eficiência não pode ser confundida com excesso de trabalho. Pelo contrário, equilíbrio entre desempenho, descanso e bem-estar deve ser visto como parte fundamental de uma rotina saudável. Assim, compreender que o valor do indivíduo não está restrito à sua capacidade de produzir pode ser o primeiro passo para construir uma sociedade mais consciente e menos adoecida.
Maria Luiza Alves – 2º período









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