Na Bienal do Livro Rio 2025, vozes e corpos diversos conquistam cada vez mais presença nas estantes, nos palcos e entre os leitores
A representatividade na literatura brasileira se fortalece no evento, que acontece entre os dias 13 e 22 de junho, no Riocentro. Em celebração ao título do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro, a feira aposta em uma programação ampla, com autores negros, LGBTQIA+, periféricos e de outras vivências presentes nas mesas e estandes. Com o novo conceito de Book Park, o ambiente também amplia os debates sobre identidade, inclusão e pluralidade nas narrativas contemporâneas.
A presença de personagens diversos na literatura infantojuvenil vem crescendo e reflete a pluralidade étnica, cultural e social do Brasil. Segundo o Ministério da Educação (MEC), até março de 2025, mais de R$180 milhões foram investidos na instalação de 38 mil novos Cantinhos da Leitura nas salas do 1º e 2º ano do ensino fundamental em escolas de todo o país. A iniciativa reforça a importância de oferecer acesso a narrativas plurais. Ao retratar personagens com diferentes origens, aparências e vivências, os autores contribuem para que crianças e adolescentes se reconheçam nas histórias, promovendo autoestima, empatia e pertencimento.
A escritora mineira Jéssica Macedo, de 29 anos, explica como traz visibilidade a grupos minoritários em seus livros. “A representatividade aparece nos meus livros por meio do meu cotidiano. Eu busco trazer pessoas do meu dia a dia. Os leitores encontram muitos nomes; eu busco também trazer características físicas. Se a leitora tem tendência mais asiática, se ela é negra… eu trago isso para as características dos meus personagens. Por exemplo, ‘Matemagicamente’ é uma história de dois irmãos, crianças negras, e eles foram inspirados nos netos da pessoa que trabalha comigo. Além disso, o meu livro ‘O Inimigo Virtual’ é sobre uma turma de amigos, pois, como cresci com pessoas negras e brancas e não fazíamos distinção, eu queria que o grupo fosse como era na minha infância”, diz Jéssica.
De acordo com a Nielsen , empresa global especializada em pesquisas e análise de dados, as vendas de livros LGBTQ+ cresceram 740% nos últimos cinco anos. O dado revela um aumento significativo no interesse do público, ainda que o mercado editorial siga em processo de consolidação, com poucas editoras adotando políticas claras de inclusão.
Para a escritora e jornalista Isabela Feijó, 36, as editoras ainda têm papel central na definição do que chega às prateleiras e na abertura para novos autores, especialmente os de grupos historicamente excluídos.“Nós temos iniciativas para novos escritores, e, para isso, abrimos formulários para inscrições, procuramos histórias em plataformas como o Wattpad, o Spirit… mas é basicamente por indicação ou pelos setores que já deixam tudo pronto e mandam pra gente. Além disso, o mercado ainda resiste às histórias com protagonismo LGBT, porque ainda é um mercado que está começando. Nós não somos considerados um gênero literário”, explica a jornalista.
Para a estudante Steffany dos Santos, 17, o livro ‘15 Dias’, de Vitor Martins, marcou de forma pessoal quando o tema é representatividade. “Esse livro me tocou porque traz a visibilidade gay, mas também fala sobre o protagonista ser gordo. Ele tem muitas inseguranças, gosta do vizinho, mas não se sente confiante com isso. A mãe do vizinho vai sair de férias, e ele acaba ficando na casa do protagonista. Os dois começam a se aproximar, e aí nasce um romance. Com isso, o personagem principal começa a se sentir mais seguro com o próprio corpo. Foi um ponto muito pessoal pra mim, porque me vi ali em várias partes da história”, compartilha Steffany.
A movimentação na Bienal e o crescimento das vendas de obras com protagonismo diverso apontam para um público cada vez mais atento às transformações sociais refletidas nos livros. O desafio agora é fazer com que as vozes antes marginalizadas deixem de ocupar apenas espaços simbólicos e passem a integrar o centro das decisões editoriais. A representatividade se consolida, não apenas como pauta, mas como termômetro de um mercado que precisa acompanhar as narrativas já nas mãos dos leitores.
Júlia Gabriela – 8º Período.










Deixe um comentário