Toxicidade e crimes dentro ou motivados pelas redes sociais mostra a importância do papel parental para educar e proteger os filhos de ameaças reais.

As redes sociais apresentam riscos reais para a segurança de uma criança e adolescente, o aliciamento e assédio sexual à menores de idade, a profusão de discursos misóginos, cooptação para práticas criminosas, induzimento de suicídio,  produção de atividades ilegais como o acúmulo de pornografia infantil e discursos de apologia ao Nazismo, cyberbullying, o linchamento virtual.  

Muitas famílias têm tomado consciência dos riscos. O reflexo foi o Brasil ter saltado do vigésimo sétimo país que mais denunciou abuso infantil na internet para a quinta colocação em 2024. 48.874 páginas diferentes foram encaminhadas pela ONG brasileira Safernet em colaboração com a rede holandesa  InHope, referência de combate contra o abuso infantil. 

Medidas protetivas também são refletidas nas instâncias federais como a segunda fase da ação policial. “Operação Adolescência Segura” que teve como objetivo cumprir internação provisória de adolescentes infratores em cinco estados brasileiros.  A investigação começou em fevereiro deste ano, quando foi localizado um atentado contra um morador de rua com uso de coqueteis molotov, transmitido ao vivo via internet. Depois de investigação, foi descoberto que o crime não era um fato isolado.

A secretária, Fabiana Torres, percebe uma mudança significativa na forma de criar os filhos e os desafios de administrar o tempo com a rotina de trabalho fora de casa, lidar com as tarefas domésticas, cuidar do filho Miguel e ainda ter esse olhar em relação ao tempo de tela e os perigos que isso pode trazer. “Para mim é essencial a participação dos pais no controle/supervisão em relação aos meios de comunicação e quantidade de informações que nossos filhos são expostos diariamente, pois entendo o quão prejudicial isso pode ser já que eles ainda estão em fase de formação do carácter e da personalidade, o que era para ser usado para aproximar mundos, está afastando pessoas dentro da mesma casa”

O porteiro, Adriano Silva, também considera primordial o diálogo e incentiva o filho de 11 anos e alega que sempre quando dá estimula o primogênito a fazer atividades longe do celular, como jogar futebol, brincar no quintal com amigos, mas ainda sim, Adriano percebeu um episódio de um comportamento diferente. “Teve uma vez que eu senti que ele estava escondendo algo, não estava falando direito e quando eu perguntava algo ele desconversava, mas falei que se tivesse mentindo eu ia descobrir e soube que ele trocou mensagens com desconhecidos a pedidos da prima no celular dela, mas consegui alertá-lo sobre os perigos e virou um caso isolado”, conclui Adriano

Para o psicólogo cognitivo Daniel Lemos, o papel dos pais como mediadores é fundamental para o uso saudável da tecnologia e demanda uma orientação ativa, supervisão e transparência para que os filhos tenham noção dos riscos e da responsabilidade que o ambiente digital demanda e conta que a mediação precisa ser adaptativa de acordo com as fase de crescimento.“Durante a infância, o controle é mais direto e estrutural: limitar tempo de tela, usar ferramentas de controle parental e selecionar os conteúdos acessados. Já na adolescência, o foco deve migrar progressivamente para a educação ética e emocional, ensinando o adolescente a lidar com conflitos virtuais, proteger sua privacidade e reconhecer situações de risco. A mediação precisa ser adaptativa: mais presença na infância, mais orientação e confiança na adolescência, sem perder o vínculo de acompanhamento e suporte”.

Fiscalização e Medidas Preventivas

A dificuldade de controlar os conteúdos massivos em redes sociais e as reações em cadeia provocadas por trends e servidores privados, que dificultam o acesso e criam reações cada vez mais de anonimato, geram preocupações. Redes sociais como o Instagram têm adotado termos que limitam o acesso a menos de 13 anos e mantêm ferramentas de controle de comentários, bloqueio e denúncias, porém a exposição e os perigos seguem à tona, como o caso de Sarah Raissa, menina de 8 anos que veio a falecer depois de inalar desodorante em um desafio no TikTok.

“Falta uma fiscalização eficaz e ações mais proativas de moderação de conteúdo, especialmente em ambientes abertos e anônimos como Discord e X. Os algoritmos ainda priorizam engajamento acima da segurança. Por isso, os pais devem recorrer também a recursos complementares, como configurações de privacidade, e o mais importante, realizar uma educação digital desde cedo”, explica Daniel Lemos.

Já Mathews Azevedo, Supervisor de T.I de  infraestrutura e redes, apresenta uma visão diferente sobre os ambientes anônimos do Discord e X (Twitter). “O problema da fiscalização acontece pois o conteúdo é criptografado e hospedado em servidores da própria empresa, ou seja, não é público. Autoridades só conseguem acesso com ordem judicial, e mesmo assim, dependendo do caso, pode demorar. E diferente das redes abertas (como o Twitter), o algoritmo do Discord não modera em tempo real cada conversa. Ou seja, se ninguém denunciar, o conteúdo pode passar despercebido”, contextualiza.

Para ele, os pais ou responsáveis podem fazer definir o horário e o tempo, regular o  tipo de conteúdo permitido, conversar sobre o que estão vendo, seguir as contas que os filhos seguem, perguntar, interagir. Realizar a configuração de apps, dispositivos com restrições (iOS, Android, Windows têm opções nativas). Mostrar como bloquear desconhecidos, deixar o perfil fechado, ensinar o que é fake news, o que é golpe, o que é discurso de ódio.

A discussão sobre o impacto das redes sociais e da internet para a criança e adolescente também chegou ao Estado. No dia 13 de Janeiro de 205 foi regulamentada a Lei 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica e  a aprovação em março na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 4.306/2020, em que o representante legal da criança ou adolescente pode pedir a retirada de um conteúdo ou link quando estiver tipificado algum tipo de violência sobre a vítima.

Daniel pondera sobre as medidas, e chama atenção que são medidas importantes mas insuficientes por si só. “A proibição do uso de celulares em escolas, por exemplo, pode reduzir distrações e prevenir situações de bullying virtual no ambiente escolar, mas precisa vir acompanhada de projetos pedagógicos de letramento digital e emocional. Já a possibilidade legal de remoção de conteúdos ofensivos é um avanço no sentido de garantir proteção jurídica, mas é necessário que os pais saibam identificar situações de violência e tenham acesso a canais eficazes de denúncia. Em suma, leis como essas empoderam os pais como agentes protetores, mas seu impacto real depende de acesso à informação, diálogo familiar e políticas públicas integradas com educação e saúde mental”, conclui

A proibição do Discord também foi pauta, o deputado federal Guilherme Boulos pediu ao Ministério Público Federal uma ação para suspender o Discord, motivado por um ato criminoso com origem na rede social. Mathews alega que suspender parece mais uma iniciativa política do que um ato eficaz e apresenta algumas medidas possíveis. “Eu acredito que funcionaria melhor seriam medidas como parcerias com as plataformas (como já acontece com outras redes) para criar sistemas de alerta, resposta rápida e canais dedicados à Justiça. Investimento em educação digital nas escolas: ensinar desde cedo sobre segurança, privacidade, limites e cidadania digital. Capacitação das forças policiais e judiciárias em cibercrimes: muitos ainda não têm estrutura para lidar com crimes online complexos, criação de normas técnicas específicas para plataformas de comunicação privada, cobrando transparência e sistemas mínimos de moderação”, finaliza Mathews

Marcio Weber – 7° período

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