O Dia da Consciência Negra, celebrado hoje, 20 de novembro, marca pela primeira vez um feriado nacional em todo o Brasil. A data presta homenagem a Zumbi dos Palmares e simboliza a luta e a resistência histórica dos afrodescendentes no país.

Instituído em 1971, o Dia da Consciência Negra foi incluído no calendário escolar nacional em 2003 e oficializado como data comemorativa em 2011, tornando-se feriado nacional em dezembro de 2023. A data é mais do que uma celebração; é um momento de reflexão sobre a luta contra o racismo e a valorização da história e cultura dos povos negros no Brasil. Ela reforça a importância de reconhecer a resistência dos afrodescendentes diante das injustiças históricas e das desigualdades que ainda persistem, além de destacar as conquistas sociais e políticas resultantes de suas lutas por igualdade e justiça.

Os negros enfrentam um tratamento desigual em várias esferas da sociedade, sendo mais severamente condenados do que os brancos quando processados por posse de drogas, apesar de muitas vezes serem apreendidos com quantidades menores de substâncias ilícitas. Esse rigor é evidente tanto na justiça quanto na atuação da polícia, que, paradoxalmente, registra 90% das mortes causadas por agentes policiais entre negros

No mercado de trabalho, o preconceito racial também se reflete em salários inferiores, com os negros recebendo, em média, R$ 1.200 a menos que os trabalhadores brancos, especialmente em cargos de gerência. A discriminação racial também se manifesta no desemprego, onde mais de 64% dos desempregados são negros. Ademais, o racismo está tão enraizado na cultura brasileira que se reflete até no vocabulário, com expressões como “da cor do pecado”, “denegrir”, “mulato” e “cabelo ruim” (para se referir ao cabelo crespo), que são heranças do legado de mais de 300 anos de escravidão no país.

Sendo assim, a população negra no Brasil ainda enfrenta desafios significativos na luta contra o racismo e na busca por igualdade de direitos. Entre os principais obstáculos estão a persistência do racismo estrutural, que se manifesta nas desigualdades de acesso à educação, saúde e mercado de trabalho, além da violência racial, com altas taxas de homicídios entre jovens negros. A sub-representação nos espaços de poder e na mídia reforça a invisibilidade dessa população, enquanto a discriminação cotidiana perpetua estigmas e barreiras sociais. 

Para o professor de Sociologia formado pelo curso de Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense (UFF), Vinicius Costa, 43 anos, os desafios da população negra em questões sociais. “O grande desafio para a população negra é evidenciar como o racismo molda as relações sociais, frequentemente colocando os indivíduos desse grupo racial em situações de desigualdade e inferioridade. Para garantir seus direitos, os negros precisam enfrentar estigmas e lutar pelo reconhecimento de sua dignidade, buscando acesso a uma educação de qualidade, oportunidades de emprego justas e moradias acessíveis e seguras”, exemplifica Vinicius.

Além disso, jovens pretos enfrentam diversos desafios em ambientes universitários, muitas vezes marcados pelo racismo estrutural e pela falta de representatividade. A entrada na universidade, frequentemente conquistada com esforço redobrado, pode vir acompanhada de sentimentos de isolamento, já que a maioria das instituições de ensino superior no Brasil ainda apresenta um predomínio de alunos brancos e de classes privilegiadas. No entanto, essas pessoas enfrentam micro agressões diárias, como olhares de desconfiança, questionamentos sobre sua capacidade e comentários preconceituosos disfarçados de “brincadeiras”. 

A jovem universitária Nadine Menezes, 24 anos, relata como enfrenta essas questões raciais. “Como mulher preta, os desafios vão desde a sub-representação até a constante necessidade que sinto de provar minha capacidade em espaços que, muitas vezes, não foram projetados para acolher a tão falada diversidade. Lido com estereótipos e com a sensação de ser minoria (e, de fato, sou). Além disso, carrego o peso emocional de ser vista como uma porta-voz de questões raciais, o que me deixa nervosa com a possibilidade de desapontar alguém ou de não corresponder às expectativas relacionadas a causas maiores do que eu”, diz Nadine.

A educação nas escolas sobre racismo também é um assunto fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Para que a escola cumpra seu papel social de combater a discriminação, é necessário que o tema seja abordado de forma contínua e estruturada no currículo, não apenas em datas comemorativas, como o 20 de novembro, mas ao longo de todo o ano letivo. A professora de Língua Portuguesa, Cleide Magesk, 46 anos, conta como tem dedicado sua trajetória a promover a valorização da negritude no ambiente escolar. Como mulher preta que cresceu em escolas públicas, a professora reconhece a ausência de atividades que abordem de forma positiva as questões étnico-raciais. Com isso, essa lacuna a motivou a integrar discussões sobre negritude em suas aulas, mesmo diante da estranheza de colegas e alunos. 

“É inegável o grande número de meninas e meninos pretos nas escolas públicas. Eu fui uma dessas meninas e sempre senti falta de atividades que abordassem a negritude de forma mais positiva. Sempre busquei trabalhar em minha rotina escolar as questões étnico-raciais para compreender a importância do assunto. Ouvir dos alunos que só eu falava sobre isso era ao mesmo tempo normal e estranho, e me questionava se estava exagerando ao constantemente levar para minhas aulas assuntos relacionados à negritude. Cansada de ver a consciência negra reduzida a um papel na parede, feito para tirar uma foto e repetir ideias estereotipadas, iniciei um processo de observação para compreender o papel da escola nesse processo. Então, comecei a desenvolver projetos em que os alunos pretos pudessem se reconhecer. Olhar para o passado absurdo de quase 400 anos de escravidão no Brasil é importante; todavia, não podemos estagnar. Os jovens precisam relembrar o passado para projetarem o futuro; precisam olhar para si com orgulho, não com tristeza e vergonha. O ‘Trançando Histórias’, por exemplo, é um projeto sobre o uso e o trabalho com tranças africanas que leva para dentro dos muros da escola o encontro entre a ancestralidade e o empoderamento através das tranças afro, promovendo debate, aprendizado e respeito”, explica Cleide.

A importância do Dia da Consciência Negra reside em seu papel como um momento de reflexão sobre o racismo enraizado na sociedade brasileira, proporcionando um espaço para que esse problema seja verbalizado e reconhecido. Embora essa data seja fundamental para sensibilizar e conscientizar as pessoas sobre as desigualdades enfrentadas pela população negra, ela deve ser vista apenas como um ponto de partida. A luta contra o racismo precisa ir além do dia 20 de novembro, exigindo uma atuação antirracista constante ao longo de todo o ano.

Júlia Gabriela – 7º Período

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