Sem Coração se passa durante o verão de 1996, no litoral de Alagoas. Tamara (Maya de Vicq) está aproveitando suas últimas semanas na vila pesqueira onde mora antes de partir para estudar em Brasília. Um dia, ela ouve falar de uma adolescente apelidada de Sem Coração (Eduarda Samara) por causa de uma cicatriz que tem no peito.  

Com direção de Nara Normande e Tião, esse é um daqueles filmes que não tem como sair da sessão sem pelo menos uma reflexão. Mesmo com a premissa de partir para Brasília, Tamara não soa como a personagem principal da história, ao passo que os dias se passam e podemos acompanhar ela e o grupo de amigos, aos poucos vai ficando mais perceptível que é muito mais que uma obra de amadurecimento, é também sobre contraste de classes sociais e vivências do dia a dia.

Evgenia Alexandrova assina a belíssima fotografia do filme, com lindos planos abertos e uma câmera em movimento do início ao fim, é quase uma carta aberta de amor a Guaxuma, demonstrando ainda mais a contraposição de lindas paisagens com os dramas vividos dos personagens. Fatores como sexualidade, violência, amor e amadurecimento regem todo o tema que é Sem Coração, ministrando também o tom e ambientação do filme, que não chega a ter um clímax forte, mas que é logo compreendido como simbolismo de desenvolvimento da trama. Nara e Tião são perspicazes em guiar o expectador nessa trajetória de contemplação, escolhendo transmitir sentimentos através dos olhares e percepção dos personagens ao invés de diálogos expositivos.

O filme é uma adaptação do curta metragem de mesmo nome, também escrito e dirigido por Nara e Tião. Agora, com mais tempo de tela, pode-se notar um tema recorrente da personagem de Eduarda Samara com a natureza e principalmente arraias. Aberto a interpretações, existe o benefício da dúvida em metáforas, como Sócrates que era conhecido como arraia-elétrica, pois “ferroava” os cidadãos de Atenas retirando-os do entorpecimento e despertando-os para o pensamento, deixa o questionamento de que Sem Coração estava tirando Tamara de uma fase da sua vida e a introduzindo a outra, da infância para o amadurecimento.

Por fim, o longa termina do jeito que promete, os personagens seguem o curso que devem seguir, mesmo que o telespectador comece a torcer por um final diferente, a realidade ainda prevalece.

Assista ao trailer!

Giovanna Bartole – 5º Período

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