Ritmo nacional ganha destaque em premiações estrangeiras mas não tem legitimidade em seu país de origem

Brasileiros ficaram em êxtase quando a cantora Anitta anunciou uma performance histórica no Video Music Awards 2023 (VMA), importante prêmio da música pop internacional. A expectativa era uma celebração internacional do funk carioca, porém foi apresentado uma diluição do ritmo nacional, em prol do reggaeton e de outros gêneros hispânicos. Sobrou a responsabilidade de representar a nossa cultura para artistas estrangeiras, como o Karol G, que cantou sua versão do funk “Tá Ok”, Cardi B e Megan Thee Stalion, que também esbanjaram com orgulho a sonoridade do Brasil. Enquanto o olhar exterior valoriza a energia do funk carioca, o ritmo ainda encontra resistência no país de origem, resultado de uma marginalização que é consequência de um projeto de poder da cultura de elite sobre a cultura popular.

Até se tornar o segundo ritmo mais buscado no Spotify nacional, o funk sofreu um longo histórico de perseguição por parte de políticos conservadores e pela mídia nacional através dos anos. Parte do discurso contra essa expressão alegava que suas músicas promoviam apologia a drogas, sexo e a criminalidade — temas também abordados por ritmos estrangeiros, como o rock, sem a mesma discriminalização. Para Junno Sena, mestre em antropologia, a marginalização do funk carioca é a manifestação de uma antiga estratégia de imposição de poder.

“Olhando para os dias de hoje, é muito interessante olhar pro funk não só como música carioca tocando nos bailes ou coisa do gênero, mas também contracultura, né? Contracultura pensando nessa cultura hegemônica europeia, quase como um lugar de rebeldia,” reflete. Sena explica que desde a época da colonização, a marginalização da cultura é uma ferramenta de domínio. No presente, a marginalização do funk é uma tática institucional de uma hegemonia de homens brancos e ricos que acumulam capital financeiro e político para desmobilizar grupos periféricos. Mas no passado, a mesma lógica foi aplicada pelos portugueses ao suprimir a religião e as tradições dos povos nativos. 

“Cultura é uma forma de você se comunicar com o outro. Então, no momento em que você corta isso e sobrepõe a sua cultura como algo acima da do outro, você corta as saídas dele para se comunicar com seus iguais e futuramente começar uma revolução,” explica o antropólogo. “Porque é a partir da cultura que você faz o povo conversar entre si, encontrar os  problemas da sociedade e pensar, ‘Minha vida está horrível. Preciso fazer algo sobre isso, não é mesmo?’ Então, no momento em que você, sei lá, traz o povo escravizado da África para o Brasil, você tira toda a cultura deles, toda a religião, toda a arte, toda a música deles. Subjugá-los pra viver sob essa doutrinação religiosa do catolicismo. Você tá silenciando esse povo pra viver sob as suas regras, as suas normas.”

Por este motivo, a elevação do funk carioca ao status de movimento cultural sofre muita resistência de uma parcela considerável da população. Além de um projeto de poder político que tem interesse em segregar a população periférica, o Brasil também herda uma construção histórica de cultura carregada de princípios europeus tradicionalistas. “Muito do nosso conceito de cultura como sociedade acabou sendo moldado a partir dessa visão eurocêntrica. Principalmente quando a gente vai pegar os livros de história, é sempre sobre uma visão do que aconteceu na Europa e depois na América e só depois a gente vai olhar para o que aconteceu no Brasil e essa construção de cultura brasileira, né?”

Mesmo ao analisar a história do funk, essa repetição cíclica de padrões imperialistas não é muito diferente. Nascido nas periferias da Zona Sul do Rio de Janeiro, nos anos 1970, o funk carioca floresce a partir das influências do hip hop americano, que também cresceu nas periferias dos Estados Unidos e sofreu forte perseguição política e policial. Ambos trouxeram, além de um refúgio para a comunidade preta e periférica, uma forma de estimular o pensamento crítico dessa população quanto às questões que lhes afetava diretamente. Em parte, esta preocupação em conversar com um público diferente daquele visado pela mídia e a produção tradicional de cultura explica parte do estranhamento inicial da sociedade.

“É muito interessante como o Brasil está nesse espaço em que há quase que vários pedaços de quebra-cabeça de várias culturas distintas formando a nossa cultura. É muito curioso como a gente não respeita isso, né? Essa diversidade, essa pluralidade… Porque a gente ainda tá muito concentrado nessa ideia de que cultura é uma coisa da Europa, é algo eurocêntrico, branco, masculino. E todo o resto, toda a pluralidade que pode surgir além desse foco acaba sendo excluída,” explica Sena. Essa divergência da estética que era valorizada no Brasil, especialmente no início dos anos 2000, ajudou a fortalecer a marginalização do gênero. Considerando o momento político atual, em que há um resgate do tradicionalismo, fica fácil entender de onde vem essa dificuldade dos brasileiros em valorizar o funk carioca como arte.

“Antropologicamente falando, cultura é basicamente todos esses artifícios que o ser humano criou para se conectar com outras pessoas, então crenças, música, arte, literatura, séries de tv, filmes, tudo isso é cultura. Afinal, é criado como uma forma de você tentar se expressar para o mundo, e o mundo tentar se expressar com você,” analisa o antropólogo. “E o conceito de cultura acaba entrando muito naquela discussão geral sobre arte. Porque para alguns, funk, música carioca, não é arte. Porque, sei lá, não tá naquele parâmetro de erudição da cultura europeia, branca e masculina.” 

Anitta e Ludmilla, duas das maiores expoentes do funk carioca pelo mundo, vão diretamente contra essa ideia arcaica de como a cultura deve parecer. A imagem do ritmo no imaginário internacional é de um gênero alegre, latino, preto e feminino — tudo o que sofre resistência culturalmente no Brasil. Enquanto esta dissidência põe em constante questionamento o valor do funk carioca sob território nacional, o ritmo cai na graça de grandes festas, festivais e premiações ao redor do mundo. A despeito dos críticos, do ponto de vista antropológico, funk carioca é cultura.

“É arte, é cultura, porque mesmo se você não levar em consideração todos os aspectos artísticos e todo o envolvimento cultural que existe ao redor do fazer do funk, ainda assim é uma expressão, ainda assim é uma forma de comunicar ao mundo suas experiências, suas vivências. O que você acha do mundo, que você acha da situação que você está naquele momento… Tudo isso é cultura porque ele tá encapsulando todas essas ideias, todas essas vontades, todos esses desejos para fora,” afirma Junno Sena.


Gabriel Mattos — 4° Período

*Produto produzido para a disciplina de Jornalismo online, sob a supervisão da professora Michele Vieira.

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