O projeto, que inaugurou esse ano e é organizado pelo Partido Comunista Brasileiro, busca na horizontalidade para construir um espírito de coletividade entre os alunos
O meu primeiro contato com o Pré Vestibular Popular Lima Barreto foi através de uma conversa em um grupo de whatsapp, no dia 1º de Abril. Em um momento coletivo de desabafo e caos, entre as dezenas de áudios e um vídeo com o hino da União Soviética, estavam dois links com a divulgação do projeto.
O Pré Popular fica em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Com sedes em São Paulo e Brasília, o projeto carrega o nome do escritor e jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto.
Considerado um dos pioneiros na literatura negra no Brasil, Lima Barreto deixou a Escola Politécnica e virou jornalista. Em 1909, lançou o romance “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, que descreve uma realidade cruel dos negros no Brasil pós-Lei Áurea.
O cursinho conta com 30 vagas, que são preenchidas após um processo seletivo composto por um formulário de 50 perguntas, entrevista e análise de documentos. A entrevista é realizada por um coordenador do projeto, que precisa apresentar o seu entrevistado para os outros coordenadores. No fim, é feito um balanço para ver quem consegue se manter no Pré.
O Lima Barreto conta uma contribuição mensal de 60 reais que são direcionados ao pagamento de luz, água e manutenção do espaço. “O que nos difere dos outros pré-vests é que se o estudante não consegue pagar, ele continua vindo e a gente pede para ele continuar vindo”, relata o professor de filosofia Fabiano Silva.
Fabiano é um dos 22 professores do Lima Barreto. Trabalhando na licenciatura desde 2007, ele começou a dar aulas de filosofia e sociologia no Instituto de Formação Humano e Educação Popular, Pré Vestibular Popular do Partido dos Trabalhadores (PT).
O IFHEP é voltado para estudantes, filhos e filhas da classe trabalhadora na Zona Oeste carioca. Após quase dez anos, com a chegada da pandemia da COVID-19 e o aumento nos valores dos aluguéis, o pré-vest fechou e a coordenação se dividiu em duas partes.
A parte que ficou voltada para a educação descobriu o Lima Barreto, que é organizado pelo Partido Comunista Brasileiro. A aproximação se deu devido à filiação de alguns membros ao partido.
“Essa que vai ser a trajetória do Lima. A Casa Bosque tinha essa salinha que era um quartinho da bagunça e a gente conseguiu levantar, em quatro meses, o dinheiro da manutenção para a reforma. As cadeiras e o quadro eram do IFHEP e os ventiladores foram doações de escolas”, adiciona o professor.
Mesmo com sedes no estado de São Paulo e Brasília, não é possível considerar o Lima Barreto uma rede de pré-vestibulares popular. Sem uma metodologia e com a construção de um projeto político pedagógico, o que une os Prés é a orientação política. Um grupo político de pré-vestibulares.
Um projeto político pedagógico é um documento que, além de identificar a instituição, deve conter os princípios e valores do espaço, além de dados e diretrizes pedagógicas.
Educação Popular
Surgida a partir das lutas de movimentos sociais da América Latina, a Educação Popular é uma filosofia no meio da educação. No Brasil, Paulo Freire é a maior referência dessa pedagogia, que a partir dela originou a “Educação Bancária”.
A Educação Popular vai contra a Educação Bancária que se ajusta às regras do capitalismo. A Popular é uma pedagogia libertadora, que entende o ser humano como capaz e ajusta o conhecimento para a realidade de quem está sendo educado, garantindo um espaço horizontal entre professor e aluno.
O Lima Barreto, por ser um Pré Vestibular Popular, é construído por todos que ocupam o seu espaço. O professor Fabiano explica que, mesmo não podendo adaptar a metodologia de Paulo Freire, a horizontalidade é aplicada na sala de aula.
“A primeira coisa que a gente fala com a galera é que todo mundo é filho e filha da classe trabalhadora. Ninguém está disputando vaga aqui. Se tiver duas pessoas no mesmo curso, elas não vão estar disputando vaga. Eles são aliados para passar na prova”, adiciona.
A horizontalidade traz a ideia de que os alunos são tão importantes para o processo de construção quanto os professores. Que eles precisam assumir o espaço como deles e cuidar, apresentando o que funciona e não funciona.
Fabiano também explica que, a partir do primeiro contato com os alunos, existe um processo de conscientização de que eles não são o problema. A combinação do descaso do ensino público com os problemas gerados pela pandemia influencia a trajetória daqueles que buscam o acesso às Universidades Federais.
“A gente pegou uma geração de estudantes que são estudantes da pandemia, o cara que se formou sem estudar matemática. Foi aprovado automaticamente. O professor não sabia mexer no computador ou se sabia, o aluno não tinha acesso ao computador, ia estudar com o celular. Isso não é um processo pedagógico adequado”, diz o professor.
Resultados da pesquisa criada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), de 2021, sobre o ensino remoto e as evidências da desigualdade no país, mostram que o celular foi o principal equipamento acessado para a realização das atividades escolares dos estudantes de 6 a 18 anos, registrando a porcentagem de 95% ou mais para todos os grupos.
Além disso, no Sudeste do país, apenas 15% dos estudantes possuíam computador ou notebook com acesso à internet para uso exclusivo. 33% era de uso compartilhado, enquanto 39% não tinham computador ou notebook.
O relato sobre o Cenário da Exclusão Escolar no Brasil, criado pela UNICEF, foi revelado como um alerta sobre os impactos da pandemia na Educação. A evasão escolar em Novembro de 2020 chegava ao número de 5 milhões de brasileiros, entre 6 a 17 anos. A região sudeste representava 10,3% desse total.
Diante disso, o professor entende que é necessário tirar a carga de cima dos alunos. Ele relata que muitos jogam a culpa para si. “Esse cara foi limado do processo sem antes pensar sequer neles, porque na escola não vai ter aquilo ali”, conclui Fabiano.
Julyana Estrela é uma das representantes de turma presentes no Lima. A estudante, que deseja cursar Ciências Sociais, acredita que seu posicionamento político se tornou mais claro a partir do momento em que entrou no projeto.
“Principalmente em questão de classes. Qual classe eu pertenço. A gente não sabe, né? Ninguém fala “Ah, eu sou pobre. Eu sou trabalhadora”. Fala de uma forma pejorativa. E aqui você entende que não é de uma forma pejorativa, é o que você é”, conclui.
Com a UERJ em mente, a aluna considera os vestibulares como um processo desigual. “É algo que instiga você a competir com outras pessoas e não é uma competição, né? Todo mundo tem que ter acesso à universidade”, completa a representante de turma.
Caio Cardozo é professor de inglês e um dos coordenadores no Lima Barreto. Para ele, toda pessoa organizada em qualquer grupo comunista entende que a faculdade é para a classe trabalhadora como um todo e o vestibular impede esse acesso.
“Se você não é uma pessoa que cresceu estudando em colégio como o Rosário é porque você não vai chegar, fazer o ENEM e vai passar. A faculdade vai eliminar pobre e, originalmente, a faculdade não foi feita para pobre. A gente conquistou o espaço da faculdade porque somos teimosos”, diz o coordenador.
Fabiano adiciona que a universidade e o estudo são formas de mudança de perspectiva de vida. Sem o acesso a esses espaços, o filho da classe trabalhadora vai continuar sendo reprodutor da força de trabalho. Ele também reforça que a faculdade deve ser para quem quiser, no momento em que ela decidir.
Até 2003, o Brasil contava com apenas 43 campus de universidades federais concentrados no litoral e nas regiões Sul e Sudeste. Implantado no primeiro e segundo Governo Lula, o Reuni elevou esse número para 230 em 2010.
O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) tinha como objetivo o aumento das vagas e a expansão da rede universitária, visando atender o interior do país. A interiorização do projeto obteve um aumento de aproximadamente 70% das matrículas presenciais nas redes federais.
Participação ativa
A horizontalidade praticada pelos professores no Lima Barreto passa pelo diálogo e também pelas decisões que os alunos fazem entre si. Identificar onde tem problema e onde não tem, quais disciplinas são as mais difíceis e relatar isso para os coordenadores.
Uma das intermediárias é Julyana. A estudante, como representante de turma, precisa entender porque os alunos estão faltando e repassar para a coordenação, além de participar das reuniões com os educadores e coordenadores, com direito de voto e repassar as necessidades dos seus colegas.
Ela também conta sobre a caixinha criada para pagar a inscrição do vestibular da UERJ. Como nem todo aluno conseguiu a isenção, ela ficou responsável pela contabilidade do dinheiro arrecadado e também enviar o comprovante após o pagamento.
Pensamento crítico
O professor Fabiano afirma que o pensamento crítico vem a partir do que é passado para o aluno em sala de aula e que, no Lima Barreto, o princípio da Educação Popular é usado para projetar o ensino para a realidade dos estudantes.
“A aula de filosofia não pode ficar no mundo das ideias, não pode ser uma coisa aleatória. Ela precisa de alguma maneira ser um impacto para os estudantes. Então a gente vai para filosofia popular”, diz.
A Filosofia Popular é um termo usado para se dirigir aos escritos filosóficos que são destinados ao público. Porém, também é utilizado para falar de uma filosofia que precisa ir além dos escritos, como as experiências, manifestações religiosas e culturais, etc.
O pensamento crítico vai sendo apresentado pelos professores com elementos de uma realidade material, possibilitando a reflexão sobre como um conceito se aplica dentro do seu espaço. Um exemplo dado por Fabiano é a aula de Geografia, ministrada pelo professor Thiago Sargento.
Para essa aula, são trabalhados elementos da realidade da cidade do Rio de Janeiro junto com a das comunidades e periferias. Nas aulas de espanhol, são lidos textos de Mariátegui e Fidel Castro sobre América Latina enquanto nas de inglês são passadas reportagens do New York Times e The Guardian sobre o caso de assédio na final da Copa do Mundo Feminina ou sobre Inteligência Artificial.
Durante o período de recesso escolar das escolas estaduais, o Lima Barreto oferece o curso de férias. Um curso de conteúdo crítico que é expandido para além dos alunos do Pré-Vestibular e ao longo de uma semana, estuda memória e história local.
A edição deste ano trouxe a questão da mulher negra, já que o curso bateu com o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de Julho. “Ao longo das semanas a gente foi trazendo nova perspectiva de aula, inclusive com um formato diferente. Então, esse tipo de formação política acaba dando muita margem para o pensamento mais crítico de atuação”, finaliza Fabiano.
A ideologia marxista-leninista do cursinho é um dos pontos indiscutíveis para o professor Caio. “A gente deixa isso claro o tempo todo. A neutralidade não existe, não existe espaço vazio. Esse espaço está sendo ocupado por alguém. E na nossa sociedade, se você não está ocupando esse espaço com uma ideologia de libertação da classe trabalhadora, esse espaço está sendo ocupado pela ideologia dominante”, conclui.
Para Julyana, a direção política e a imparcialidade dos professores são alguns dos pontos que ela mais gosta do Lima Barreto. “Um dos maiores ganhos aqui é poder ver os professores que têm a mesma ideologia política, ou ideologia política parecida, ver que eles são, assim, pessoas normais como a gente”, completa a aluna.
O Pré Vestibular Popular Lima Barreto fica na Casa Bosque, na Estrada do Caroba, em Campo Grande. É possível segui-los no Instagram através do @cursinholimabarretorj.
Mayara Rocha — 4° Período
*Produto produzido para a disciplina de Jornalismo online, sob a supervisão da professora Michele Vieira.








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