Os mortos nos ouvem, mesmo que não saibamos ao certo o que dizer. Seja no vazio da casa sem filhos, ou nos pequenos segredos que são escondidos no dia a dia, uma mãe sempre sabe como unir a família.

Dirigido e roteirizado pela gaúcha Cristiane Oliveira (Mulher do Pai e A Primeira Morte de Joana), produzido por Aletéia Selonk (Okna Produções) e protagonizado por Cibele Tedesco (Chiara) e Hugo Lorensatti (Alfredo), Até Que a Música Pare exala uma beleza melancólica como há muito não se via no cinema nacional; como uma tela em branco onde a cada pincelada nos aproximamos dos personagens.

Foto: Reprodução

Nele conhecemos Chiara, mãe de Marco, Bea e Vancarlo. Marco, faleceu em um acidente de carro, Bea já vive em outra cidade, e Vancarlo, acaba de se mudar. Nesse contexto, Chiara tenta dar um novo significado à vida, e passa a acompanhar o marido, Alfredo, nas vendas pela serra, descobrindo comportamentos e hábitos dele que ela não conhecia. Fato que arranha a relação de confiança em um casamento de muitas décadas, já que Alfredo se mostra um típico pai de família que camufla as próprias hipocrisias com lições de moral. 

O elenco, oriundo do teatro do grupo Miseri Coloni (Caxias do Sul), tem uma harmonia visível, como se todos os personagens realmente fossem membros de uma mesma família. Nesse contexto, é notável a atuação ímpar de Cibele Tedesco; sua interpretação reluz em meio às sombras da personagem, com uma docilidade ruidosa e maternal.

Na expressão triste, mas inquieta é possível perceber as amarguras e as dúvidas que habitam o coração. Os movimentos contidos, os passos remansados, os olhos lânguidos e perdidos; toda performance conduz o protagonismo de forma primorosa. É pela atuação de Cibele que conseguimos nos conectar com a trama, sendo a perspectiva da personagem o que nos guia aos recôncavos mais escondidos dos familiares.

Já a fotografia sombria de Julia Zakia é de uma poesia bucólica, escura e silenciosa, típica da estética camponesa; quase uma pintura gótica com solitários crucifixos em paredes sem vida, rosários descansando em frente a capelinhas de madeira, e o rangido dos passos lentos que atravessam o assoalho nas noites monocromáticas, onde em meio às figuras e símbolos religiosos nos perguntamos se de fato Deus existe.

Os cômodos com altos pés direitos e luzes baixas, desenhando as sombras da mobília nas paredes de madeira, se abrilhantam pelos pequenos detalhes que permeiam as cenas internas; quase podemos sentir o cheiro do café fumegante no bule sobre a mesa. Facilmente nos conectamos com a elegância da louça esmaltada e desbotada que com certeza todos herdamos e foi presente de casamento de uma avó.

Se o silêncio melancólico das internas se destaca, as externas igualmente são particulares: é possível nos arrepiarmos pelo vento frio que uiva em meio à cerração, bem como é ainda maior a sensação de solidão passada pela simpática e singular casa de madeira com o anexo em alvenaria contornada pela imensidão planaltina; ali, muito longe, estão os vizinhos mais próximos.

A trilha sonora de Ginevra Nervi, tão italiana quanto a compositora, nos transporta para os cenários da Serra Gaúcha com maestria, embalando os sentimentos, incertezas e inquietações de Chiara. As músicas passeiam pelos lamentos melodiosos que desaguam na empatia contemplativa da personagem, bem como pelas fraternas e amistosas fanfarras com cheiro de uva e orvalho numa manhã de festa no outono.

O roteiro e direção de Oliveira nos brindam com uma trama simples e cotidiana, sustentada por reflexões filosóficas dignas de Tarkovski, o que rendeu ao longa a seleção entre os 10 roteiros escolhidos no Festival de Berlim. Um fator que merece destaque, é o longa ser falado parte em português, parte em italiano e parte em Talian, uma mescla dos dois idiomas que é falado em algumas regiões mais interiorizadas do sul brasileiro, o que dá mais personalidade à película. No filme, a banalidade dos hábitos e a hipocrisia dos costumes florescem. 

Até Que a Música Pare é um longa que explora um Brasil cinzento e frio, que promove contrastes geracionais e reflete sobre o luto e as formas de encará-lo. Uma obra completa, simples e ao mesmo tempo complexa visto a particularidade com que cada indivíduo encara as próprias idiossincrasias, hipocrisias e ironias; um filme que emana um desalento triste e uma solidão penosa em uma atmosfera com cheiro de casa de vó. Assista ao trailer:


Vitor Luiz Leite – 1° período

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