“Canção Ao Longe” (2022), marca a volta de um filme dirigido por Clarissa Campolina após o lançamento de “Enquanto Estamos Aqui” (2019) no ano passado. Integrante da seleção do Festival do Rio, na seção “Novos Rumos”. A ficção trata sobre um processo de rito de passagem na vida de uma jovem que se vê entrando na vida adulta.

Foto: Pedro Rena
Jimena (Mônica Maria) vive com a mãe e a avó no coração de Belo Horizonte, ao se sentir deslocada e precisando encontrar um lugar no mundo, ela decide se movimentar para morar sozinha. A posição lacunar e distanciada que a figura paterna ocupa na vida da jovem geram cicatrizes e ruídos que dificultam a busca do entendimento e de realização dela junto ao mundo. Ela é forçada a encarar a falta de respostas, o silêncio e enfrentar o peso de suas escolhas.
A incomunicabilidade entre pais e filhos, e a posição da sociedade de uma jovem mulher negra de origem multicultural numa das principais cidades metropolitanas da América Latina, são as temáticas costuradas pela produção. Para desenvolver a história, o filme destaca o silêncio e uma observação progressiva e lenta de acontecimentos que giram em torno das descobertas, escolhas e renúncias. A protagonista é promovida também como o eu-lírico da própria história, onde ela enumera sentimentos e reflexões íntimas e essa decisão confere um ar mais conferem à trama uma percepção subjetiva e sentimental para a trama.
O filme se desenvolve por instantes que reforçam encontros, olhares e descobertas para o mundo. Onde a visão para o passado é uma forma de enxergar não apenas a si, como compreensões de vida. É a partir dessas experiências que Jimena percebe a negligência e o desconhecimento da vida do próprio pai, o impacto do racismo estrutural e como esse fator impacta a individualidade de uma pessoa que atravessa privações e complexos existenciais. A produção apresenta questões complexas que demandam um esforço do espectador por desenvolver um olhar lírico que reforça uma visão subjetiva para temas factuais.
A fotografia traz cores quentes e uma iluminação difusa que dá ênfase às características regionais das locações e reforçar sensações, como a melancolia e a solidão na interação entre os personagens. O trabalho sonoro é minucioso e descritivo que capta os ruídos e os sons ambientes, reforçando o viés cosmopolita que perpassa a história.
A direção trabalha o minimalismo, onde através do silêncio e da observação que conduz o andamento do filme. Os personagens são filmados em planos aproximados onde a ênfase está mais na expressão e nos detalhes corporais, em contrapartida, o longa-metragem traz uma observação complexa das cidades com enquadramentos complexos e detalhistas que desenvolvem traços muito particulares promovendo essa intimidade.
Mônica Maria desempenha um papel que exige muito do físico por estar mais associada ao interior e o psicológico, e consegue transmitir as dúvidas e buscas demandadas por Jimena. Já o elenco de apoio, não tem grandes, mas é funcional por propiciar uma interação emotiva e com diferentes camadas para desenvolver as questões individuais interligadas diretamente com a protagonista.
“Canção Ao Longe” traz poesia e questões para uma narrativa universal de autodescobertas, pelo teor mais lento, reflexivo e difuso pode afastar alguns espectadores, mas tem o potencial de atrair um público alvo pela sensibilidade do discurso. O filme estreia nesta quinta-feira (06/07) com distribuição da Vitrine Filmes. Confira o trailler:
Márcio Weber – 2° período






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