O longa-metragem de ficção “Derrapada”, nova produção do cineasta Pedro Amorim (Mato Sem Cachorro) chega aos cinemas brasileiros com a missão de adaptar o livro “SLAM” de Nick Hornby, renomado autor britânico, que tem no currículo obras como “Alta Fidelidade” (1995) e “Fome de Bola” (1992) e duas vezes indicado ao Oscar como roteirista por “Educação” (2009) e “Brooklyn” (2015). O projeto teve passagens no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, além de ter sido premiado no Indy Film Festival em Indianápolis, nos EUA, na categoria de Melhor Filme Internacional. A história gira em torno de um adolescente de 17 anos que enfrenta a gravidez inesperada de sua parceira romântica.

Foto: Helena Barreto
Samuca (Matheus Costa) é um estudante do ensino médio que, no meio do período das greves estudantis, vive o marco entre a adolescência e a fase adulta. Ele está se conhecendo e desenvolvendo sua personalidade, enquanto isso curte as paixões que nutriu pelo skate e aproveita o dom para o desenho. A relação saudável de parceria com a mãe, Melina (Nanda Costa), e o namoro inédito com a líder do movimento estudantil, Alicia (Heslaine Vieira), parecem representar o melhor momento da vida do jovem. Até que surge um deslize fatal que afetará o rapaz e todas as pessoas próximas dele.
“Derrapada discute temas que se relacionam com os noticiários, dados estatísticos e que podem ser percebidos na vida diária de qualquer brasileiro, como a masculinidade tóxica, a dúvida sobre o papel do jovem na sociedade, o aborto, as reivindicações pela melhoria do ensino da educação pública, a influência parental na formação do caráter dos filhos, dentre outros assuntos. Mesmo com uma abordagem que discute assuntos tão sensíveis e pesados, o filme traz uma linguagem leve, com uma narração em primeira pessoa, e edições ágeis e arrojadas, contribuindo para a informalidade e o teor lúdico do imaginário de um jovem que começa a desfrutar intensamente provoca no senso comum. Samuca não é apenas o protagonista e interlocutor, ele se confessa para o público nas diversas quebras de quarta parede em que fala diretamente para a câmera, usando gírias, interpretações e visões de mundo como em qualquer conversação informal e íntima.
Outra característica marcante do longa é a presença de cenas animadas. As sequências de animação brincam com cores, formas e traços que se assemelham a uma arte urbana, como o graffiti. São momentos que expressam a criatividade, o desejo e a puerilidade de uma pessoa que está se desenvolvendo para a vida. Gravado no subúrbio do Rio de Janeiro, em bairros como Madureira e Maracanã, contém trechos também na cidade de Cataguases, em Minas Gerais. O filme incorpora as particularidades do cenário urbano de uma cidade metropolitana da América Latina e a cultura do esporte e, ao mesmo tempo, trabalha o contraste entre essas duas localidades entre o frenesi urbanístico do Rio, paralelo ao município mineiro de característica mais pacata e interiorana que é utilizada em um momento determinante no filme. Apesar dos diferenciais apresentados na produção, o excesso de diálogos expositivos que simplificam e tornam mais simplistas as discussões da trama e alguns personagens que apresentam características unilaterais e esquemáticas destoam.do todo.
A fotografia se distancia de um tom realista e trabalha uma tonalidade de cores fortes e de alta saturação que reforçam as experiências intensas e implacáveis vividas pelos personagens. A trilha sonora do filme usa como tema constante, o tema “inverno” de As Quatro Estações, composição emblemática da música clássica assinada por Antonio Vivaldi e empresta a sonoridade forte e timbrada para marcar as passagens acidentadas de Samuca pela trama.
Enquanto Matheus Costa apresenta uma atuação segura e coesa como o personagem principal, mesmo que sem grandes impactos emocionais. A parceira de cena do protagonista, Heslaine Vieira, demonstra empenho e desenvoltura dramática, mas é comprometida pelos momentos expositivos da trama. Os intérpretes dos pais de Alicia tem destino similar, especialmente Luís Miranda. O elenco de apoio é o principal atrativo do longa, com personagens multifacetados, e transmitem interesse e profundidade. Nanda Costa, como uma mãe que também teve o filho na adolescência e consegue reforçar uma personalidade forte e afirmativa. Já Leandro Costa e Augusto Madeira são os destaques do elenco masculino, emprestando carisma e verdade para papéis que desempenham figuras problemáticas e falas questionáveis de aceitação na sociedade atual.
“Derrapada” é um filme que pode e deve dialogar com um público amplo, em especial, adolescentes e jovens adultos, oferecendo uma comunicação direta e universal e em voga com a atualidade. Distribuído pela Manequim Filmes, a produção pode ser conferida nas salas de cinemas brasileiros a partir desta quinta (22/06). Confira o trailler!
Márcio Weber – 2° período






Deixe um comentário