Junho marca a chegada do mês do Orgulho LGBTQIA+, mês que coincide com o lançamento de “Corpolítica”, longa-metragem documental de estreia de Pedro Henrique França. A passagem no circuito de festivais de cinema rendeu reconhecimento crítico como o prêmio de público no Queer Lisboa em Portugal, melhor filme no MIxBrasil e o prêmio Félix de melhor documentário pelo Festival do Rio. O projeto tem como ponto de partida investigar a representatividade de políticos assumidamente LGBTQIA+ na política brasileira a partir das eleições de 2020.

Foto: Liz Dórea

Durante as campanhas eleitorais foi noticiado, conforme a Aliança Nacional, que 584 pessoas se declaram LGBTQIA+ para o cargo de vereador e prefeito, apesar do número representar apenas 0,1% da totalidade dos candidatos, o índice representa aproximadamente o dobro comparado às eleições de 2018. Ao se deparar com a falta de representação e o crescente aumento de indivíduos dispostos a concorrer por cargos políticos, o diretor Pedro Henrique França decide acompanhar a campanha pré-eleitoral de quatro jovens adultos com aspirações políticas que até então nunca tiveram atuação direta na esfera da política pública brasileira. 

Estatisticamente o Brasil é o país que mais mata transexuais, segundo o projeto Trans Murdering Monitoring Project, 35% das mortes mundiais, entre 2008 e 2022, globalmente foram em território brasileiro. Diante deste fato, Pedro Henrique França investiga a lacuna de representatividade e os impactos dos discursos de ódio no cenário político. O documentário conta com muitas entrevistas e abordagem persuasiva com vocação didática. O risco de adotar uma linguagem engessada e com pobre refinamento estético são atenuadas por um perfil rico de entrevistados que estimulam o espectador a compreender o percurso histórico de pessoas LGBTQIA+ na política entre o espaço de lutas, reivindicações e afirmações de existência e resistência.

 O conteúdo é situado boa parte do período das eleições de 2020 e existe uma preocupação da narrativa em revisitar períodos e acontecimentos de um passado recente que refletem não apenas a conjuntura política, possibilitando um local de fala em que percepções e visões de mundo a respeito do Estado das Coisas possa ser debatido. Para isso o documentário se divide entre os depoimentos pessoais com uma relação direta com a temática proposta, além de contar com um material de arquivo de sessões na câmara dos deputados, no plenário, e não se furta em evidenciar os discursos que incitam a aversão e agressão a pessoas LGBTQIA+. 

O roteiro debate as contradições e posturas controversas de parlamentares e políticos, trazendo notícias e posicionamentos dos retratados para se opor e evidenciar as incongruências em falas e posições que incitam a violência e reproduzem um imaginário de ódio para grupos minoritários.

A montagem traz diversos recursos utilizados pela direção, como o conteúdo videográfico com reportagens e dados estatísticos, a locução realizada pelo diretor Pedro Henrique França, as imagens das redes sociais dos candidatos, o material de arquivo, a gravação de entrevistas e situações que são colocados de forma assertiva ao longo do documentário. Há uma pluralidade de vozes e circunstâncias retratadas. O tema musical do filme, apesar de trazer tom dramático, peca pela repetição em excesso.

 “Corpolítica” é mais um representante da safra de documentários brasileiros que discutem temáticas sociais complexas, trazendo reflexões substanciais que podem impactar e provocar diferentes percepções ao espectador. Distribuído pela Vitrine Filmes, o filme chega aos cinemas nesta quinta (08/06). Confira o trailer!


Márcio Weber – 2° período

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