Musical “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino” leva representatividade e empoderamento para os palcos cariocas

A peça em formato seriado conta a história de grande estrelas da música nacional que marcaram época e ainda fazem história

O espetáculo “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino” chegou ao teatro Prudential, localizado no bairro da Glória, no último dia 19 de maio e fica em cartaz até o próximo dia 26 de junho. A obra tem uma proposta inédita no país, em formato seriado, toda semana o elenco faz uma homenagem a algum momento histórico da música popular brasileira e exaltam figuras femininas que fizeram história nos palcos. Após as apresentações, o público também participa de uma roda de conversa para debater sobre o papel dessas mulheres em lutas contra o racismo e machismo. 

Algumas das artistas celebradas pelo musical são as cantoras Carmen Costa, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Alaíde Costa, Clementina de Jesus, D. Ivone Lara, Alcione, Elza Soares, Margareth Menezes, Sandra de Sá, Tati Quebra Barraco e Iza. Já para os debates, após cada sessão, o espetáculo recebe personalidades como Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Jurema Werneck e Flavia Oliveira.

A atriz e cantora Bárbara Sut, que integra o elenco do musical, destacou o papel social de promover um espetáculo que apresenta vozes marcantes da música nacional para novos públicos. Segundo ela, não é possível reconhecer o trabalho dessas artistas, sem antes conhecer de fato a história delas. “Pelo lado artístico, acho necessário bater palma para a obra delas, mas também politicamente acredito que é muito importante que a gente não esqueça o que elas fizeram para que outras mulheres pudessem chegar até aqui”, afirmou.

O diretor e idealizador do espetáculo, Gustavo Gasparani, contou um pouco sobre como surgiu a ideia de realizar uma montagem em formato de série, algo nunca feito antes no Brasil. O dramaturgo, que já comandou outras peças como “SamBRA”, “Otelo da Mangueira”, “Bem Sertanejo” e “Samba Futebol Clube”, revelou que queria fazer uma homenagem às cantoras pretas brasileiras e por meio da história delas fazer um musical sobre o feminismo negro. “Durante os meus estudos sobre as cantoras e os períodos, percebi que elas enfrentam desafios diferentes em cada década. Então surgiu a ideia de dividir em períodos e escolher ícones dessas épocas e fazer uma série”, explicou.

Ouça um trecho da entrevista com Gustavo.

Para a atriz e cantora Analu Pimenta, que também faz parte do musical, essa é uma oportunidade para mostrar para outras mulheres negras que elas só puderam chegar nesse ponto da história por causa da luta de gerações passadas. Ela ressaltou que para moldar o futuro, é preciso voltar ao passado e saber de onde veio. “Nessa peça a gente reconhece de onde a gente veio para falar, isso eu não quero mais fazer, aquilo eu não quero mais perpetuar e quero que as pessoas aprendam para que possamos ser melhores”, declarou.

Uma das homenageadas do espetáculo, a cantora Alaíde Costa esteve presente na apresentação da peça na sexta-feira (03/06). Após as apresentações, a cantora que marcou a história da música popular brasileira e que continua impactando o cenário musical fez uma breve participação e interpretou duas músicas do longo repertório dela. Emocionada, Alaíde comentou sobre como se sente ao ver as próximas gerações dando continuidade ao legado dela. “Eu espero que essas meninas sigam uma trajetória parecida com a minha, porque acho que o que me manteve até hoje cantando e interpretando, mesmo com dificuldades, foi saber que no futuro seria mais fácil para elas”, contou a cantora.

Depois de cada apresentação do musical, acontece uma roda de conversa entre o público e uma voz negra feminina da atualidade. Jurema Werneck, Diretora-Executiva da Anistia Internacional no Brasil, ativista antirracista e co-fundadora da ONG Crioula, foi uma das convidadas para participar dos debates dos episodios 2 e 3, que falam sobre o samba, bossa nova e questões como a ancestralidade.

Ela reforçou que em uma sociedade racista há muitos atores sociais que tentam silenciar as vozes das mulheres negras. “O espetáculo lembra que nenhuma força de silenciamento é bem sucedida para sempre. Estamos aqui reivindicando de volta para nós essas vozes e elas estão aqui. É importante também para as novas gerações, para que elas entendam como essas mulheres negras transformaram uma parte importante do Brasil”, apontou. 

Verônica Bonfim, que é cantora, escritora e atriz, participa do espetáculo realizando a apresentação, tanto do musical, quanto dos debates que seguem após as apresentações. De acordo com a integrante da obra, ela se sente honrada e grata por poder narrar, conduzir e cantar histórias de mulheres tão marcantes. “Então, me sinto muito honrada de estar aqui nesse momento, ecoando a voz de muitas mulheres que foram silenciadas ao longo de tanto tempo, incluindo a minha, é algo muito potente”, confessou.  

Essas vozes, todas elas, são ecos das nossas ancestrais que nos conduzem para onde a gente quer ir, para onde a gente quer conduzir a nossa sociedade.

Verônica Bonfim

A psicóloga e consultora de diversidade e inclusão no audiovisual e no teatro, Deborah Medeiros, que também faz parte da produção, observou que o musical desperta muitas emoções gratificantes e comoventes, mas por outro lado também tem uma carga dramática forte. “O espetáculo também provoca sentimentos que não são tão positivos assim. Ver como essas mulheres sofreram e como há uma contínua tentativa de silenciamento das nossas vozes até hoje. Ele nos faz perceber o quanto ainda temos que caminhar e lutar” lembrou.

O público presente também destacou a relevância de fazer essa viagem para épocas onde as vozes negras eram caladas e como isso pode mostrar um caminho para a nossa sociedade nos dias de hoje. O ator e dançarino Eder Julio, que foi assistir ao espetáculo, falou sobre como a peça fez ele sentir muitas coisas que estão guardadas dentro dele, desde memórias, passando até por um sentimento de ancestralidade que o emocionou. “Mesmo para quem não viveu essa época, ele comunica e desperta algo no nosso interior. Esse espetáculo é importante porque ele faz realmente germinar algo que já está intrínseco, mas que, muitas vezes, ainda está adormecido”, disse.

A professora Naylla da Silva, mencionou como ter contato com histórias inspiradoras de mulheres que marcaram décadas passadas é um caminho para despertar o interesse e despertar muitas pessoas para questões que podem passar despercebidas no dia a dia. Ela acredita que o aspecto mais importante do musical é despertar um incômodo em quem assiste. “A gente começa a se perguntar, se questionar e vai buscar mais sobre isso. Ampliar o nosso conhecimento sobre essas pessoas e sobre nós mesmos, principalmente, eu como uma mulher preta, acredito que é fundamental sentir esse sentimento e conhecer mais sobre nós mesmos e inspirar outras pessoas”, concluiu.

Confira a reportagem sobre a terceira semana do espetáculo “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino”.


O musical “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino” está em cartaz no teatro Prudential, no endereço: Rua do Russel, 804 – Glória. As sessões ocorrem de quinta a domingo entre 19h e 20h da noite. Os ingressos custam a partir de R$ 25 reais, a meia entrada. A temporada carioca vai até o dia 26 de junho. 

Foto de Capa – Crédito: Bernardo Cartolano

Lucas Souza – 7º período
Pedro Amorim – 6º período

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