Biblioteca pública apresenta o mundo das histórias e possibilidades às crianças carentes do interior do Maranhão

O espaço organizado pelo projeto social Ubuntu já adquiriu mais de 250 livros através de doações

“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas, por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede”, já criticava o poeta Carlos Drummond de Andrade durante o século XX. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostra que, em 2019, o brasileiro leu apenas 4,96 livros. Entre os entrevistados para o estudo, 67% afirmaram não terem qualquer incentivo de terceiros para adquirir o hábito de ler.

Em contramão da maioria, Tuane da Paz Cavalcante tem o desejo de mudar o cenário da leitura no país. Ela passou toda a infância no Povoado Leite, no interior do Maranhão, e conta sobre a dificuldade de acesso à literatura na região: “Nunca tivemos uma biblioteca, eu conseguia um livro ou outro com os meus professores”.

Foi pensando na educação precária do local que Tuane, em fevereiro de 2020, organizou o projeto Ubuntu, através das redes sociais, para arrecadar doações e conseguir montar uma biblioteca pública para as crianças de 3 a 10 anos do povoado. “A minha meta era conseguir 100 livros infantis e deu certo. Pessoas de todo o país, até de fora do Brasil, nos ajudaram”. Em seguida, Tuane fez mais uma vaquinha na internet para montar o espaço gratuito de leitura.

“Ubuntu é uma expressão africana que tem relação à generosidade e significa: sou quem sou, porque somos todos nós. É a noção de coletividade, só estamos aqui pois as pessoas no mundo fazem acontecer. A gente precisa de alguém que ensine a gente. Como o projeto é 100% colaborativo, acho que tem muito a ver com esse conceito.”

Tuane da Paz Cavalcante

Quase um ano depois, em janeiro de 2021, a primeira biblioteca infantil finalmente foi inaugurada, com o nome escolhido para homenagear o querido avô de Tuane: Biblioteca Antenor Soares da Paz. “Ele era grande entusiasta das histórias”, comenta. O espaço, que antes era sem graça e tomado por entulhos, hoje abriga o mundo das histórias e possibilidades para as crianças carentes.

Tuane acredita que a melhor fase para incentivar o ato de ler é na infância, para combater desde cedo o preconceito acerca deste hábito. “Os livros são atrativos, coloridos e divertidos. O que torna mais fácil atrair os pequenos”, explica. Atualmente, na Biblioteca, duas voluntárias auxiliam na mediação das rodas de leitura que o projeto oferece, com os horários pré-organizados para os pequenos receberem toda a atenção possível.

Ouça o áudio abaixo em que a organizadora do projeto, Tuane da Paz Cavalcante, conta como se sente em ajudar essas crianças e quais são os obstáculos que enfrenta:

Renan, de 4 anos, olhou para o livro infantil escolhido para a roda de leitura por Gio Cavalcante, uma das mediadoras do projeto, e disse que não queria ler. “Ele me falou: tia, eu não gosto desse livro. Mas eu fiz questão de mostrar a ele que a primeira impressão que teve sobre a obra não era de fato o que o livro era.”, conta a artesã de 28 anos. Depois, Renan comentou feliz: “Tia esse livro é muito legal!”. É com muito carinho e dedicação que Gio conta as histórias para que as crianças, como o Renan, possam transformar a própria vida e a de outras pessoas no futuro.

“É importante lutar pela educação. Mesmo que o lugar onde você lute seja pequeno, no interior e que ninguém tenha ouvido falar. Mas quando você quer e tem amor por aquilo que faz, tudo dá certo. Um livro tem o poder de formar seres humanos do bem.”

Gio Cavalcante

Confira o vídeo abaixo em que a voluntária Gio Cavalcante ressalta a importância de incentivar a leitura desde cedo:

Em abril, a Receita Federal defendeu aumentar os tributos em cima dos livros no Brasil, com o pretexto de que “só os ricos leem”. A proposta de reforma, enviada ao Congresso em 2020, deixaria as obras sujeitas à alíquota de 12%, encarecendo a produção e consequentemente o produto final. Como ressalta a organizadora do projeto Ubuntu, a taxação dos livros poderá afastar cada vez mais quem necessita da leitura para se transformar, aumentando o abismo entre a educação do rico e do pobre.

Ana Fernandes – 7º Período

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